10 janeiro 2014

Fanfiction: A MUSA - Capítulo 2


N/A: o poema utilizado neste capítulo é originalmente de Pérola Cardoso que gentilmente me emprestou suas palavras para demonstrar o sentir da personagem.
            Eu entrei em meu apartamento de New York após mais uma aula. Erarecém contratada da Columbia University, no departamento de Artes. Não tão “recém”, porém. Havia um ano. Isto me fez mudar do Brasil, para a pulsante New York. As aulas lá não seguiam bem a minha área de especialização, em musicologia. Eu precisei expandir o meu conhecimento para outras áreas das Artes, o que era bom. Ocupava-me:mente, corpo e espírito.
            Eu passei pela sala retirando os sapatos. Meu apartamento não era um lugar muito grande, mas tinha cômodos amplos, o espaço bem aproveitado, a decoração era clara.Eleficava a cinco minutos do Central Park. Era um bom lugar pra viver, eu acabei me adaptando e gostando dali.

Incapaz de me mover,
Olho ao redor e te procuro,
O ar infla meus pulmões,
Enquanto contenho as lágrimas.
Mordo os lábios e fecho os olhos.
Rezo, pela primeira vez.
Aonde está você?
Porque não está aqui?
Rezo para ver seu rosto outra vez.
Os dias passam,
As noites se acumulam,
Encaro o teto em desespero.
Aonde estás?
Não sinto meus braços,
Ou minhas pernas,
Apenas meu coração,
Que a cada batida dói,
Sofre pela sua ausência,
Implora o seu retorno.
Os murmúrios são vários,
Mas mal os escuto ou entendo.
Procuro seu nome entre os sons,
Mas também não o encontro.
Choro, sem poder me conter,
Meu rosto molhado,
Você não está aqui para secá-lo,
Com seus dedos,
Com seus beijos.
Passou-se um ano,
Dois, três, cinco.
Saí daquela cama,
Mas não lhe vi.
Ninguém fala de você,
Porque?
Onde você está?
Meu coração ainda sofre,
A cada batida.
Meu rosto ainda se molha,
Todas as noites,
Esperando que você o seque.
Estou perdida,
Sem você não há luz,
Me sinto presa novamente.
Presa na escuridão,
Presa na solidão,
Presa à você.
Porque?
Porque eu fiquei?

Deixei as chaves do meu carro sob a bancada de fotografias e não consegui evitar que meus olhos se prendessem aos porta-retratos. Haviafotos de minha equipe de produção do documentário “O tesouro do mundo”, por muitos lugares aos quais havíamos passado e fotos minhas no dia da premiação do Oscar. Depois daquilo, daquele documentário, minha vida nunca mais foi a mesma.
            No Brasil, como Carlos Andrade gostava de dizer, meu nome foi elevado a realeza. Fui chamada para produzir alguns roteiros, mas recusei a maior parte deles.Isto porque não queria me perder da minha área de formação, a música.
Só fiz mais alguns. Um foi para um filme/musical infantil muito meigo, com texto de Eva Funado. O filme ganhou premiações, inclusive por melhor roteiro infantil… foi exportado para outros países. Este foi o único filme, e não documentário, que produzi, mas ainda assim era um curta-metragem.Depois vieram mais documentários, que eu realmente gostava de fazer. O meu ultimo preferido havia sido “A trupe do trapo”, em que falei sobre um grupo de teatro musical com deficientes físicos e mentais. Era um mundo maravilhoso, me perdi naquilo. Eles montaram uma peça especialmente para o documentário. Então eu mesclei trechos da peça com os depoimentos dos integrantes do grupo e de sua idealizadora. Foi maravilhoso.
Porém, em todas as minhas produções eu mantive vínculos com a música, de alguma forma eu me sentia traindo a mim mesma se me afastasse da minha profissão original. Embora muitos me incentivassem a isto, eu não quis basear toda a minha vida sóno cinema. Eu segui com os meus estudos na área da musicologia, das artes como um todo, atuando como pesquisadora e agora como professora universitária.Durante um tempo eu tive uma carreira dupla. No ultimo ano, no entanto, me dediquei mais a Universidade, deixando o cinema de lado para tentar acalmar os ânimos da mídia, que andava me sufocando demais, principalmente a brasileira.
            Foram muitas as conquistas, mas estas não chegaram nem perto de suprir minhas percas.Não foram as fotos das premiações ou dos filmes que prenderam os meus olhos naquele momento… foram outras.
            Minhas mãos, já acostumadas a seguir aquele caminho, foram parar justamente no maior porta retrato exposto. Era digital, por ele passavam várias fotosdeles… dos meus amores. Ao vê-las eu dei boas vindas a costumeira dor no peito e minha pergunta de todas as noites e manhãs voltou a soar em minha mente: “Por que eu fiquei?”
            Eram fotos do meu casamento, em meu rosto brilhava um sorriso que eu tinha dificuldades em acreditar ter sido real. Outra foto, da minha gravidez, com meu marido Gustavo beijando minha barriga. Eu ainda podia ouvir a voz dele me dizendo:
_ É a gravida mais linda do mundo!
            Outra foto… do meu parto. Murilo, meu filho, entre as cabeças minha e do meu marido. Em nossos rostos mais sorrisos e os olhinhos do meu filho ainda fechados, apertadinhos, o rosto sujo, esbranquiçado e ensanguentado. Na outra foto estávamos só eu e Murilo, na cama, eu estava deitada com as costas no colchão erguendo-o em meus braços enquanto ele me brindava com uma gargalhada maravilhosa. Foi Gustavo quem tirou aquela foto.
            O som da lembrança dos risos do meu filho e marido foram interrompidos pelo som de um forte impacto. Eu me lembrava nitidamente do momento exato em que os perdi: primeiro eu tinha me virado para o banco de trás pra tirar uma foto do rosto de Murilo sujo de chocolate... o caminhão vinha na outra pista, há uns cem metros. Me virei pra frente, Gustavo olhou pelo retrovisor o rosto risonho do filho e o caminhão não estava mais na outra pista, estava em cima de nós. Não senti nada, apenas me lembro do barulho ensurdecedor de ferragens sendo esmagadas.
            Eu larguei o portaretrato bruscamente, buscando por ar, mas o peso da lembrança estava sob o meu peito, me impedindo de respirar. Foi há cinco anos, cinco malditos anos em que eu fui a única sobrevivente de um acidente terrível. Não se salvou o motorista do caminhão, não se salvou o meu marido… não se salvou o meu filho. E eu? Apenas um braço quebrado e um tornozelo deslocado, milagrosamente.
            A dor maior não era por eles terem ido, mas por eu ter ficado. Ficado consciente enquanto as pessoas vieram me dar os pêsames;ficado viva pra me sentar entre dois caixões lacrados sem nem sequer entender o que acontecia… ter sobrevivido ao meu filho, jogado terra em cima dos caixões das pessoas que mais amei. Ficado saudável pra arrumar o quarto do meu filho morto, pra deitar na cama vazia sem o corpo quente do homem da minha vida.
Viva, eu simplesmente fiquei viva!
            Acordei de mais um surto de dor com o barulho do telefone.
_ Alô? – Minha voz estava morta quando atendi.
_ Então, esqueceu da sua mãe na terra dos brasis, é? – Era impressionante, ela sempre me ligava em momentos parecidos. Parecia que adivinhava.
_ Não, Dona Amanda. Eu não me esqueci de você. Só estive um pouco ocupada.
_ Sei… ocupada. Com trabalho, eu presumo. – Ela disse, em tom de quem desaprova.
_ Sim, com trabalho. – Eu tirei o maldito sutiã apertado e me joguei no sofá fofo e claro da sala, ligando a TV e zapeando pelos canais enquanto ouvia minha mãe falar.
_ Filha! Por Deus! Você vive pra trabalhar ou trabalha para viver?
_ Você sabe, mãe. A primeira opção. Não me resta outra.
_ Você não pode passar o resto na vida nisto! Eles não iriam querer te ver…
_ Mãe! – Eu gritei antes que ela tocasse no assunto que pretendia. Dona Amanda entendeu, suspirando do outro lado do telefone.
_ Filha, por favor, por favor! Faça algo por você! Algo que você goste realmente de fazer! Oh, meu anjo, quer você queira ou não, você está viva e é por alguma razão! Então não envergonhe a confiança e amor que todos os que te amam tem por você, inclusive os que já se foram… e não se suicide!
_ Eu não vou me suicidar mãe… já passei desta fase. – Eu suspirei. Certamente aquilo não ia sair da cabeça dela tão cedo.
_ Uma semi-vida é um suicídio muito pior do que amarrar o pescoço e tirar os pés do chão. – Ela disse, com a voz embargada. Eu estava certa, ela nunca ia esquecer aquela cena. De certa forma, minha mãe era uma das poucas que enxergavam a minha condição miserável apesar de todo o prestígio profissional que ofuscava minha vida.
_ O que você quer que eu faça? – Eu perguntei, cansada e amargurada.
_ Viva! – Minha mãe disse aquilo furiosa, como se me desse um tapa na cara, o que pareceu ainda mais agressivo quando ela desligou o telefone bruscamente. Qualquer coisa que ela pretendia falar comigo foi esquecida por sua revolta.
            Eu deixei o aparelho móvel de lado e exalei profundamente. Ela já havia feito de tudo pra que eu abandonasse o trauma mórbido de viuvez, por inúmeras vezes brigamos. Confesso que ela foi um dos motivos mais fortes para que eu abandonasse a apatia dos primeiros meses do luto e saísse da cama. E ela foi o motivo de eu ter fracassado em meus planos de suicídio. Fora ela que um dia depois do enterro do meu marido e filho, arrancou uma corda do meu pescoço, me impedindo de saltar do banco que eu havia subido… impedindo-me de sufocar, morrer como eles. Depois do que ela me disse naquele dia, eu nunca mais tive intenção de tentar suicídio novamente. Decidi isto mesmo antes de começar a terapia.
Algum tempo depois, quando a música não era o suficiente pra extravasar minha dor, eu me pus a escrever, encontrando nas palavras, na criação de um mundo literário intangível, uma válvula de escape para minha dor. Daí para a minha atuação como roteirista foi rápido. 
Mas eu sabia que apesar de tudo que mudei em minha vida -digo, a exaltação profissional -, minha mãe não estaria satisfeita até ver o meu sorriso brotar de dentro novamente. E tão pouco se enganaria com qualquer felicidade efêmera que eu tentasse fingir. Eu sentia muito mesmo ter que decepcioná-la, mas não era capaz. Depois de eles terem me deixado, tudo tinha ficado raso demais, superficial demais pra mexer com meu coração novamente.
            Meus olhos voltaram a focar a televisão, eu tinha deixado em um canal que transmitia pela milésima vez o meu documentário vencedor do Oscar. Mudei de canal, não queria assistir novamente. Não hoje.
O que havia no canal seguinte era outra superprodução americana a lá 007, com direito a terroristas ameaçando a vida do presidente e tentando conquistar o governo dos Estudos Unidos. Repentinamente a cena de negociação do personagem principal, disfarçado em meio ao inimigo, passou pra uma luta bem coreografada que destruía todo o cenário.
Muito inteligente e inovador! Sem sombra de dúvida aquilo merecia o Oscar! O ator principal exibia os seus dotes nas artes marciais e, providencialmente, sua camisa rasgou no meio da cena, exibindo o peitoral malhado. Sua expressão tinha poucas e pobres variações, e em todas estas variações o principal era o movimento das sobrancelhas. Não se podia esperar muito de uma cópia barata de Tom Cruise. Se ele não fosse bonito, nem sequer teria atenção. Ou talvez tivesse, uma vez que Steven Seagal até que tinha durado bastante, mesmo fora dos padrões de beleza, na minha opinião.
Eu tinha mais birra daquele ator por já ter suspirado por ele lá pelos meus dezoito anos, quando eu já namorava Gustavo. Eu era idiota, tendo o homem real, que realmente valia a pena ao meu lado e perdia tempo olhando para um jovem lobo musculoso.
Aqueles foram os meus pensamentos até o filme acabar: eu enxerguei cada mísero defeito na produção e nem sequer prestei a atenção em uma possível qualidade. No final das contas, destilar minha amargura, mesmo em pensamento, para Taylor Lautner acabou por aliviar a tensão que o telefonema de minha mãe me causara.
O filme acabou com uma cena dos atores principais em uma praia do Caribe, com uma nova investigação eletrizante em mãos. Realmente aquilo era muitoooo original! Rolando os olhos eu desliguei a TV com o propósito de tomar banho e…
Meu telefone tocou.
_ O que é? – Atendi, sem o mínimo de paciência, pouco me lixando pra quem seria.
_ Então a deusa está brava? – Ele disse, com voz branda.
            Eu sorri, de certa forma era um alívio ouvir a voz de um velho amigo.
_ Mateo! – Minha voz pareceu mais um suspiro aliviado. Mateo sempre sabia como me distrair.
_ Quem mais poderia ser? – Ele riu. - Eu te disse que ligava hoje não?
Eu fiz uma careta ao me lembrar do porquê ele estava me ligando.
_ Por favor, não! Não me venha com aquele assunto. Eu realmente não estou com ânimo para prosseguir com isto.
_ Mas você vai continuar com esta teimosia e desperdiçar aquele material? – Ele falou indignado, sua voz ficando cada vez mais aguda.
_ Eu nem sei porque eu mostrei aquele roteiro pra você, se quer saber. Escrevi em noites de insônia, nada sério.  – Mateo pareceu urrar de indignação do outro lado do telefone.
_ Nada sério? Por Deus! Aquilo foi a coisa mais espetacular que eu já li! Você tem que…
_ Mateo, se você continuar com isto eu desligo o telefone e não atendo você pelas próximas três semanas! – Imediatamente ele percebeu o tom da minha voz e suspirou, desistindo.
_ Certo… não falo mais… mas não significa que vou desistir. – Eu rugi pra ele no telefone. Mas ele riu, sem se abalar.
_ Vou deletar! – ameacei.
_ Tsk, tsk, tsk… tão inteligente e tão tola. Eu fiz uma cópia. – Ele deu aquele risinho afetado quando eu exalei impaciente.
_ Foda-se!
            Ele riu mais.
_ Isto é palavriado de realeza minha rainha? Que decepção! Mas, bem, vamos mudar de assunto então.
_ Mudar de assunto? Pensei que tivesse perdido o amor a vida e quisesse bater na mesma tecla… - eu disse, sarcástica.
_ Não ainda… Mas o fato é que estou com saudade de ter minha musa posando pra mim.
_ Não sou modelo. – Disparei azeda.
_ Andou mergulhando em más lembranças novamente? – A voz de Mateo ficou séria de repente.É claro que ele iria perceber, eu nunca era tão amarga com ele.
_ Não…
            Ouvi um suspiro.
_ Estou indo pra aí.
_ Não venha. - Eu só queria ficar sozinha em momentos assim, era difícil entender isto?
_ Até! – Foi só o que ele me respondeu.
Mateo foi a segunda pessoa que desligou o telefone na minha cara em menos de uma hora. O resultado disto foi que o telefone foi parar no outro lado da sala com a fúria que eu o arremessei. A sorte foi ter caído em cima do sofá, perdendo-se no meio das almofadas, do contrário teria se espatifado.
            Eu precisava esfriar a cabeça, precisava! Ainda com algumas dúvidas, destranquei a porta para Mateo entrar.
Andei até meu quarto e, em cima do criado ao lado da cama, encontrei o caderno em que escrevi um poema na noite passada, depois de mais longas horas de insônia:
**Presa nessa cama,
Mas não estás aqui.

_ Gustavo… - eu sussurrei. Uma lágrima ameaçando a umedecer meus olhos. Eu sentia tanta a falta dele enquanto tentava dormir… sentia tanta falta do meu menininho, do meu filinho rindo pra nós.
Respirei fundo mais uma vez e rasguei o papel com aquele poema, jogando no cesto de lixo. Fui para o banheiro e preparei um banho quente na hidromassagem, com sais o suficiente para me embriagar com o perfume.Quando Mateo chegou eu estava quase dormindo na banheira, acordei com o clique da máquina.
_ É péssimo ter um amigo paparazzi. – Eu sussurrei, abrindo os olhos aos poucos pra me deparar com uma careta no rosto bonito de Matt.
_ Não me ofenda. Eu não sou paparazzi, sou fotógrafo. O que eu faço é arte, não fofoca. – Eu sorri, e virei o rosto para o outro lado. – E você é bem consciente de que poderia ter entrado um ladrão no meu lugar com aquela porta aberta, não é? – ele continuou, me repreendendo.
_ Pra que servem as minhas noites treinando Muaythai?
_ Pra te deixar com o bumbum mais empinado? – ele brincou, tacando água em meu rosto.
            Eu voltei a olhar pra ele, recebendo mais um clique de sua maquina. Ele adorava tirar “fotos espontâneas”, dizia que só assim conseguia captar expressões únicas. Eu, por sua vez, dizia que era mania de paparazzi, o que o deixava furioso.
_ Não estou boa pra servir de modelo hoje…
_ Minha querida, pra você não existe dia ruim. Olha este rosto… - ele passou os dedos pela ponta do meu nariz. - … este colo perfeito coberto por espuma… - Matt desceu a mão pelo meu pescoço. – E estes cabelos presos tão displicentemente gloriosos… Você está perfeita! Você é perfeita…
“_Você é perfeita…”
Eu reprimi a lembrança de Gustavo repetindo as mesmas palavras e voltei a me focar em Mateo. A voz meiga dele tentava me ludibriar, eu conhecia bem o amigo que tinha.
_ Guarda a maquina. – Eu disse, pausadamente. Ele sorriu e se levantou da beirada da banheira indo para o meu quarto.
_ Sabe, a Bianca está rouca… o pessoal lá do LougeBrazil está sem cantora hoje… - Ele me gritou enquanto fazia alguma coisa em meu quarto… talvez mexesse em meus perfumes.
Ele sabia que a desculpa “estão sem cantora” não ia me enganar já que eu sabia muito bem que havia outros cantores que poderiam muito bem cobrir a falta de Bianca no Lounge.
_ Nã-ão… - Eu cantarolei, prevendo a proposta dele.
            Mateo apareceu com um sorriso meigo na porta do banheiro.
_ Como diz os brasileiríssimos: quem canta seus males espanta… - Ele piscou. – E eu sei que você adora se divertir naquele palco, cantar com aquela banda maravilhosa e… eu vou escolher sua roupa.
­ _ Mateo, eu disse que não! – Eu gritei, me levantando da banheira.
_ Você pode ser Diana Moreno, meu amor. Mas eu sou Mateo Vasconcellos e estou decidido a te levar pra lá! Vou te fotografar cantando hoje, meu amoorrr!
            Eu disse não novamente… e persisti fazendo isto umas três vezes mais. Porém, uma hora mais tarde eu estava pronta, entrando no carro a caminho do LoungeBrazil pra ensaiar com a banda antes que a casa fosse aberta para o público. Mateo era um homem infernal, tão impossível de se dobrar quanto eu. Ou seja, éramos o par perfeito de amigos.
_ Olha, olha, olha! Que saudades da Moreno! – Rafael, o baterista da banda, me cumprimentou, logo depois fazendo uma sessão rítmica de grande efeito na bateria. Eu aplaudi, sorrindo com a recepção.
– Vem pro palco que o palco te chama, Diana. Hoje eu estou sentindo que a noite vai ser memorável! – Juliana, uma das backing vocal da banda, uma negra linda de voz espetacular e dona do Lounge, me chamou, já posicionada em seu lugar.
            O LoungeBrazil tinha uma espécie de clã brasileiro. Muitos brasileiros o frequentavam e mais um tanto de americanos descobriram aquele lugar exótico como mais um hobby na ilha de Manhattan.
A bandaque tocava lá, Musibra, foi formada por iniciativa de Juliana, que agrupou alguns músicos brasileiros perdidos em New York. EramJorge, na guitarra e violão; Bianca, Marina, João e a Ju na voz; Gabriel, no baixo; Jordana no teclado; Bruno, que era um multi-instrumentista (tocava flauta, sax, trompete, clarinete) e Rafael na bateria.
No início, eles se apresentavam pelos bares de NY, até Juliana ter peito novamente e abrir o Lounge, um lugar cheio de “brasilidades”, como ela dizia. Da primeira vez que vim para Nova York, há uns quatro anos, pra visitar a nova morada de Mateo, eu vim aqui com ele e me apaixonei. Eu ainda estava muito melancólica pelo luto e, em um rompante, pedi pra subir no palco e cantar uma música. O grupo me recebeu com surpresa, mas me acompanhou maravilhosamente. Quando me mudei pra cá, comecei a ser frequentadora assídua e, por vezes, cantava junto, ou no baking ou como vocalista mesmo. Depois de algum tempo acabei por me tornar uma participante remota da banda do Lounge.
_ O que a Bia teve? – Perguntei, enquanto arrumava o pedestal do microfone e testava o som.
_ O que você acha? O maldito cigarro corroendo suas pregas vocais. Ultimamente ela tem ficado mais rouca que o normal. – Gabriel, irmão de Bianca, resmungou. Eu só balancei a cabeça.
_ Não é só o cigarro. Às vezes ela abusa da voz… vocês sabem. – eu disse.
_ Ela não está cantando mais a noite inteira Dih, eu vou pro vocal também. Estamos dividindo. Mas... ela já teve problemas na voz e não se cuida. Não quer ir ao médico, não segue o tratamento. Vai acabar com aquela voz divina que ela tem. – Juliana disse,um tanto melancólica.
            Não demorou muito pra começarmos o ensaio. Eu conhecia a maior parte das músicas do repertório, afinal, na minha época de faculdade meu sustento foi o dinheiro conquistado em cantar em bares noturnos nos fins de semana. E a pedida do pessoal dali girava quase na mesma: samba, bossa-nova, MPB e algumas americanas. Era um barzinho mais intimista, tranquilo, bom pra ir conversar e relaxar.
            Logo que eu soltei a voz, nas primeiras notas, eu senti o meu corpo e alma ficarem mais leves, meu sorriso ampliar. Eu fluía de acordo com cada canção, meu corpo pulsava com cada batida, meu coração vibrava com os acordes do baixo. Era sempre assim, desde que eu me entendia por gente, eu simplesmente amava música, sempre me perdia nela. Isto desde meus quatro anos quando comecei a cantar no coral da igreja. Eu sentia e vivia tudo que a música me pedia: se ela era melancólica, assim eu ficava; se era alegre, meu sorriso ao cantar era o mais sincero do mundo.
            Mateo sabia disto, sabia que quando eu tocava ou cantava, meus ânimos se acalmavam. Por isto que ele escolheu me levar pra cantar justamente pra armar uma das boas comigo. Quando o Loungeabriu eu já estava solta e relaxada, tomando alguns goles de Martini antes de começar a cantar realmente, e rindo das conversas tolas e descompromissadas do pessoal da banda. Desde o ensaio, Matt havia tirado mil e uma fotos de mim, coisa que ele adorava fazer desde que éramos adolescentes e ele começou o curso de fotografia no Brasil.
            Mas eu só descobri o que Mateo planejou para aquela noite quando duas figuras entraram no Lounge, no meio do show, por volta das onze da noite. Era um dos casais mais estimados no mundo hollywoodiano: Emma Thomas e seu marido, ninguém mais, ninguém menos que Christopher Nolan. Mateo simplesmente sabia que eu era fã deste diretor desde quando, lá pelos meus 18anos, assisti “Batman: O Cavaleiro das Trevas”. Depois que vi este filme eu devorei tudo que Nolan havia dirigido, de “Following” até “A Origem”...E até se ele dirigisse um show de talentos de adolescentes de colegial eu assistiria, porque sabia que ele faria o melhor show de talentos de escola de todo o universo.
            Como Mateo havia conseguido leva-lo ali, eu não sabia, mas só de pensar que poderia ser por minha causa, toda a tranquilidade que eu sentia enquanto dançava e cantava no palco estourou e desapareceu como bolha de sabão.
            Christopher ficou a me olhar o tempo inteiro enquanto eu cantava, perecendo se divertir com o swing da música… ou com o jeito que eu dançava no palco.
_ Muito obrigada. – Eu disse, depois de mais uma leva de aplausos.
_ É isto aí!!!Maravilhosaaaa!!! – Um cara qualquer me gritou da plateia, eu apenas sorri.
_ Vamos de uma americana agora? – Perguntei, sorrindo. Houve um murmúrio geral de aprovação pela plateia. – Wefoudlove… - Anunciei o nome da música tanto para plateia quanto para a banda.
            Fizemos esta música em uma versão mais leve, eu me sentei no banquinho pra cantar. Jorge, outro integrante da banda, me emprestou seu violão.Tentei esquecer o friozinho na barriga e simplesmente cantei, de olhos fechados e alma entregue. Aos poucos eu senti as conversas se acalmarem, os olhares se voltando a mim.
            Terminei de cantar em meio a estrondosos aplausos e finalmente desci do palco. Era intervalo, um tempo de descanso para banda. Imediatamente Mateo veio me abordar.
_ Tem gente te esperando. – Ele disse, todo sorrisos.
_ Que diabos você pensa que está fazendo senhor Mateo? – Eu perguntei em um sussurro, enquanto ele me puxava pela mão em direção à mesa de Christopher e Emma.
_ Dando um empurrãozinho básico. – Ele me respondeu no mesmo tom.
_ Como conseguiu traze-los aqui?   
            Ele me olhou confuso.
_ Não foi eu quem os trouxe, foi você, na verdade. Ou melhor, foi o seu texto.
            Eu engoli em seco. O desgraçado do Mateo havia me desobedecido e mostrado aquele bendito roteiro pra outra pessoa? Eu não podia reclamar com ele, uma vez que já estávamos muito próximos da mesa e Christopher já se levantava pra me receber.
_ Bom, aqui está ela. Acho que podemos dispensar as apresentações, já que todos aqui sabem o nome de quem. – Mateo disse com tranquilidade, se sentando ao lado de Emma e pedindo uma rodada de caipirinha pra todos nós. – As pessoas costumam gostar deste drink brasileiro. – Ele disse, incentivando Nolan e Emma a experimentarem.
_ É um prazer conhece-la Diana. Você realmente faz jus a sua fama. – Christopher foi o primeiro a falar depois do afetado do Matt. – Sua presença é impactante… - ele disse e voltou a olhar para o palco agora vazio, como se tentasse se recordar de algo.
_ Sem sombra de dúvidas. Te assistir é uma experiência única. Você conseguiu me transportar a um outro lugar… não sei. – Emma completou os dizeres do marido com um sorriso afável.
_ Obrigada, mas o prazer é todo meu por conhecer vocês. – Eu disse, meio sem jeito. O que eu falaria, afinal?
_ Já pensou em se tornar atriz? – Eu arregalei os olhos quando Christopher disse aquilo, assim, de repente. Ele sorriu e tentou se explicar. - O que eu vi passar em seu rosto naquele palco é raro de se ver em muitos artistas.
_ Eu concordo com o Chris. Você teve a capacidade de se expressar corporalmente, traduzindo o sentimento da música sem se tornar ridícula e forçada… ou coisa do tipo.  – Emma disse, enquanto me avaliava ainda mais. Deixei meu queixo cair involuntariamente.
            Mateo deu uma risada estrondosa.
_ Vejam, vocês já conseguiram deixa-la acuada!
            Eu olhei feio pra ele, mas me recompus rapidamente.
_ Definitivamente não! Eu não penso em ser atriz. – Eu respondi aquilo com tanta convicção que nenhum dos dois pareceu duvidar daquela decisão.
_ Mas você certamente sabe como agir com uma atriz. – Christopher não parecia estar com a mesma postura de quem se diverte, como eu havia percebido que ele estava enquanto eu cantava. Ele parecia, assim que me sentei naquela mesa, ter assumido uma postura de quem negocia, de quem avalia um negócio. Naquele momento eu estava me sentindo “O negócio”.
_ O que quer dizer? – perguntei, confusa.
_ Bom, desde quando eu recebi um texto seu em minha casa e comecei a ler, desde quando procurei assistir os filmes que você já produziu, com enredos e roteiros seus, eu tive a certeza que seria um excelente negócio trabalhar com você. E ver a sua sensibilidade artística naquele palco acabou por reforçar esta opinião em mim.
            Eu respirei profundamente. Como todo profissional eficiente, Christopher era direto e preciso em uma negociação. E sim, aquilo era uma negociação e o casal a minha frente eram duas verdadeiras raposas cercando a caça. Ao observar o olhar dos dois eu imediatamente soube que eles queriam muito que o negócio entre nós desse certo.
_ É uma honra ouvir isto, vindo de vocês. Mas eu realmente não tenho coisas tão grandes em mente nesta área.
_ Isto é bem estranho de se ouvir de alguém que conquistou o Oscar.       - Emma disse, divertida.
_ Ou não. Ter conquistado o Oscar pode ter sido o suficiente para alguém. – Eu respondi. – Além do mais, eu nunca planejei fazer algo para promover a minha imagem. Eu não produzi aquele documentário com o objetivo de ganhar um Oscar. Eu fiz porque eu queria fazê-lo, porque eu acreditava no que estava fazendo, eu gostava, estava apaixonada pelo tema. Eu me dediquei aquilo porque eu acreditava na beleza do material que tinha em mãos. Assim foi com todas as outras coisas que fiz. Agora, se foi com a intensão de conquistar uma promoção na calçada da fama que vocês vieram me procurar eu realmente sinto muito…
_ Não precisa continuar com isto. – Christopher me cortou, sorrindo. – Eu não sou este tipo de pessoa, Diana. Eu não estou atrás de fama vazia. Eu estou atrás de trabalhos que valem a pena, que sejam ricos. Pelas tuas palavras é nítido ver que você tem um pensamento finamente artístico… eu também tenho. E admiro pessoas que o tenham.
            A conversa estava tensa. Mas eu tinha que confessar que eu era uma das principais responsáveis por aquilo. Eu não era uma pessoa muito fácil de lidar em termos profissionais, eu tinha aqueles defeitos básicos de perfeccionismo e era exigente demais. Isto faz com que uma pessoa possa ser intragável em certos momentos.
_ Diana… deixa eu ver se entendi uma coisa… - Emma interferiu, com certa doçura. – Você não quer que o material que Mateo nos mostrou seja produzido?
            Finalmente, eles haviam chego em um bom ponto.
_ Veja bem senhora Emma…
_ Só Emma, por favor…
_ Certo… Emma. Eu costumo escrever pra extravasar emoções. Mas eu não sou aquele tipo de pessoas que escrevem diários ou poemas, eu sempre gostei de escrever histórias, contos. O texto que Mateo lhes mostrou, sem a minha autorização, – eu olhei feio para Matt neste momento. Ele me mandou um beijo. Era um idiota mesmo!– …é uma destas histórias, que eu escrevi nas minhas horas vagas, ou no meio da noite. Eu o fiz em um formato de roteiro por fazer… Eu nem sequer me preocupei em revisá-lo. Eu nem sequer coloquei um título!
_ Sim, nós percebemos isto. Certamente tem coisas a serem aperfeiçoadas, mas o bruto é excelente. – Christopher disse, novamente empolgado.
_ Acontece que minha área profissional não é, essencialmente, o cinema. O que eu aprendi foi pela estrada. Por isto eu nunca ousei me meter em um longa, principalmente com um tema tão diverso dos que eu trabalhei até então. Aquele enredo é um devaneio.
_ Me desculpe, mas as melhores ficções costumam surgir de um devaneio. O seu enredo é um épico, e tem tudo pra ser dos melhores. Ao contrário de você, o cinema é a minha profissão principal, aquilo que me dediquei em toda a minha vida, há mais de vinte anos, o que é mais da metade da sua idade. – O que Christopher dizia parecer ser agressivo, mas a mim pareceu gentil. Ele delicadamente me colocava em meu lugar. Com a experiência dele, ele certamente sabia o que dizia. – Mas, por vezes, estudos e mais estudos especializados em uma área tornam as coisas técnicas demais, rígidas demais. Você, mais do que ninguém, deve saber que é preciso de instinto quando se trabalha com arte. – Ele se inclinou pra frente, em minha direção, quase como quem queria dar o bote. - Diana, eu estou aqui porque quero fazer daquele seu enredo o melhor filme que já dirigi!
            Mas eu não deixei transparecer que fiquei intimidada com aquela sentença de Christopher. Respondi imediatamente.
_ É uma história épica como muitas e muitas outras, Christopher. Não é novidade nenhuma e tem tudo pra cair no ridículo também.
            Christopher voltou a se recostar na cadeira e tomou um gole da caipirinha. Emma riu ao meu lado, aquele riso caracteristicamente britânico: discretamente divertido.
_ Bem que você avisou que ela era dura na queda. – Eu ouvi muito bem quando ela sussurrou isto para Mateo. Mas depois Emma se voltou pra mim. – É medo o que você está sentindo Diana?
            Okay! Com esta ela havia conseguido minha atenção. Eu não respondi, apenas ergui as sobrancelhas.
_ Medo de produzir algo ridículo, que saia fora dos seus elevados padrões estéticos? – Ela voltou a perguntar.
_ Sim. – Eu admiti. Naquele instante eu ouvi a banda recomeçar a cantar, com a Juliana no vocal. Olhei para o palco, eles não haviam interrompido a conversação certamente a pedido do meu master amigo ardiloso, Mateo. – E você há de convir que isto não é tolice. O mundo não precisa de mais coisas ridículas.
             Os olhos dela cintilaram quando disse aquilo.
_ É incrível como você é segura na sua própria insegurança! – Ela respondeu, fascinada. – Mas é este medo que evita que erros assim sejam cometidos, Diana. Eu repito o que o Chris disse: seria um excelente negócio trabalhar com você. Diana Moreno, nós queremos tudo o que você tem a nos oferecer e se você não se acha capaz de enfrentar o fôlego de uma superprodução, eu digo que estaremos todos juntos nesta. Você nos oferece o seu refinado instinto estético e artístico e nós o nosso profissionalismo e experiência na área. É um desafio que vai valer a pena, eu garanto!
_ Por favor… é só dizer um sim… - Christopher quebrou a tensão fazendo uma expressão melancólica de uma criança que pede algo que realmente deseja aos pais. Ele tinha aqueles olhos claros voltados pra mim de maneira comovente e as mãos juntas uma na outra.
_ Aceita linda… - Mateo sussurrou.
_ Eu posso pensar nisto… - Eu tentei soar neutra, mas aqueles infelizes já haviam plantado uma vontade no meu âmago. Aquela minha sede por desafio já estava acesa… Minha mente já me traia quando eu começava a visualizar o que escrevi em cenas nítidas.
_ Somente os fracos adiam suas decisões… você não parece ser assim Diana. – Emma apertou. Não era a toa que ela era uma produtora executiva bem sucedida. Aquilo era covardia, os três me maltratando… raposas… eu estava certa, estava cercada de raposas!

_ Vocês também são duros na queda! – Eu brinquei. Eu sabia, aquela altura, que eles não sairiam dali sem uma resposta definitiva minha, que eles entraram naquele lugar com isto em mente. E eu também sabia que tudo aquilo, aquele interesse todo de pessoas que eu realmente valorizava, havia contaminado o meu ego o suficiente pra que eu desse a resposta que iria mudar a minha vida de vez: - Que seja… vamos fazer isto juntos!  

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