25 janeiro 2014

Fanfiction: A musa - Capítulo 4



POV Taylor

            Faziam cerca de seis meses que eu estava em uma folga entediante. Sem absolutamente nada previsto para trabalho. No início, eu não sentia tanto isto devido a quantidade de eventos que eu tinha que marcar presença. Mas depois… as coisas começaram a se acalmar. Durante o auge da minha carreira eu ansiava desesperadamente por uma folga assim, mas eu não sabia o quanto eu tinha ficado dependente do ritmo veloz da fama, mas sim, eu tinha.
Ficar parado estava me deixando perdido, agoniado dentro do meu apartamento em L.A. Eu já tinha passado um tempo na casa dos meus pais, saído com amigos, feito tudo o que devia fazer. Mas eu não aguentava mais ficar sozinho na minha casa, principalmente a noite. E eu também não aguentava mais fazer mil e um malabarismos pra fugir de paparazzi e ir tranquilo a uma balada ou mesmo ir jantar com amigos.

            Na agonia em que eu estava, resolvi sair para a academia perto do meu prédio. Eles tinham excelentes treinadores de artes marciais e era disso que eu precisava no momento. Mas eu realmente não esperava encontrar uma certa pessoa lá. Eu me lembrava muito bem de seu nome, mesmo que pessoalmente eu só a havia encontrado uma vez: Diana Moreno.
            Eu me encontrei com ela em um dia um tanto quanto especial e o principal motivo de me fascinar por ela foi, obviamente, a beleza estonteantemente incomum. E havia algo mais, uma aura de realeza, de poder, um caminhar seguro e sensual. No entanto, as poucas palavras que fui capaz de trocar com ela me deixou um tanto…  constrangido.
“_ Não pensei que atores com suas especialidades se interessassem em documentários deste gênero…”
            Ela provavelmente deve ter esquecido disto depois, mas o fato é que eu fiquei obcecado com aquelas palavras em que ela pareceu me subjugar. A primeira coisa que fiz quando tive oportunidade foi assistir o bendito documentário… O tema não tinha nada a ver com os meus interesses, ela tinha certa razão. Nele, ela rodou o mundo falando de culturas musicais exóticas, mas nem por isto, eu deixei de me impressionar com aquela produção. Eu sentia, mais do que nos documentários que eu costumava ver, que aquilo tinha alma, algo poético muito bem construído. 
“_ É mais do que uma diversidade de sonoridades… é expressão do que sentem, do que vivem, do que creem os homens do mundo. É expressão de espíritos, racionalidades e natureza. Música tem estas muitas faces… em qualquer canto do mundo…”
            Eu havia praticamente decorado o texto que ela falava no início do documentário. Depois eu assisti enquanto ela se embrenhava no meio de povos completamente estranhos, as vezes eram tribos no meio do nada. Ela aprendia com eles o significado de suas músicas e acabava por praticá-las junto deles. Ela não só produziu o documentário, como atuou a frente das câmeras e narrou todas as cenas.
            E foi uma das partes mais marcantes daquele documentário que me fez pesquisar sobre sua vida pessoal e descobrir a sua viuvez e a perda de seu filho. Na cena em questão, mostrou-se o funeral de uma criança, em um povoado chinês. Os cânticos do funeral eram belos, sutis e brandos, entoados todos pela mãe da criança e repetidos por todos que ali estavam. Diana cantou com eles… chorando durante todo o tempo… Do dialeto ela só tinha aprendido as palavras das canções, mas nem por isto deixou de cantar com uma devoção que nos prendia do outro lado da tela.
            Depois de ver aquilo tudo, foi impossível que a figura dela não ficasse marcada na minha memoria e, mais do que isto, eu imediatamente desenvolvi uma espécie de admiração por ela, pelo seu trabalho, por sua história de vida.
            Então, quando eu a vi lutando naquele tatame, eu congelei e tive uma reação que eu imaginava ser comum nos fãs. Fiquei parado, querendo ter alguma desculpa suficientemente boa para me aproximar e conversar. Quando eu tive esta oportunidade fui recebido com certa hostilidade e depois com uma proposta completamente… completamente surpreendente!
            Ela me chamou para lutar… aquilo parecia surreal demais. Primeiro porque eu nunca a imaginei em um ambiente de luta, com homens brutais se agarrando e urrando, muito menos imaginei que ela fosse o tipo de pessoa que lutasse alguma coisa. E segundo porque… qual era o motivo de ela querer lutar comigo? De me propor aquele desafio?
            Eu me senti intimidado diante da proposta dela, principalmente por ser feita do jeito que foi feita, mas topei.
            E ela era boa, realmente boa no que fazia. Na luta, não era instintiva, ela dominava a técnica e conseguia me surpreender por diversas vezes. Ela sabia, acima de tudo, acabar com a desvantagem que o meu peso e tamanho a mais provocavam. E claro, eu ainda estava, principalmente no começo da luta, meio perdido no que estava acontecendo e, admito, perdido na beleza da minha oponente. Então, enquanto eu fiquei nessa de ser cuidadoso ela pareceu furiosa e conseguiu me levar ao chão por duas vezes.
            Os movimentos dela eram fluídos e perfeitamente estudados e eu me sentia mais inseguro diante dela do que jamais me senti diante de muitos faixas pretas.
            Só depois de um tempo de luta eu percebi que ela parecia me testar, os olhos azuis pareciam captar qualquer movimento miserável dos meus músculos. Por alguma razão ela parecia me analisar. Minha aparente apatia, provocada pelo cuidado que eu tinha em tocá-la, parecia a deixar ainda mais irritada, ela perecia levar aquela luta realmente a sério.
            Ela tentou me dar um golpe com o braço, mas eu pude o pegar a tempo e o girar, forçando-a ficar de costas para mim. Quando a senti presa e o corpo dela perigosamente perto do meu, deixei imediatamente de pressionar e a soltei.
_ Ora Lautner! Lute de verdade! Se envolva! – Assim que eu a soltei ela me gritou isto furiosa, o que parecia mais uma ordem. Pela minha visão lateral eu pude ver o cara que antes lutava com ela rir abertamente.
            Aquilo me fez estreitar os olhos pro loiro imbecil e encarar novamente Diana Moreno, que também me encarava com uma expressão clara de frustração no rosto.
            Espera aí! Da ultima vez que nos encontramos, no Oscar, ela tinha toda a razão de me intimidar: estávamos na área dela, ela estava reinando. Mas ali, em uma academia, em um tatame…Aquele era o meu território!
            Brevemente eu olhei em volta. Apesar de ser mais de dez horas da noite, a academia estava cheia e muitas pessoas acabaram se acumulando ao nosso redor. No rosto de alguns treinadores, alguns eu conhecia outros não, havia um certo ar de deboche por eu estar sendo colocado “contra o tatame” por uma mulher.
Eu voltei meu olhar pra ela. Os cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo, mas mechas já haviam caído em seu rosto. Ela estava com os braços abertos em minha direção, esperando eu tomar uma decisão, com uma das sobrancelhas erguidas em desafio. Seu colo, apertado em uma regata branca, subia e descia em uma respiração acelerada.
Eu dei dois passos a frente, o que a fez abaixar os braços e retesar a postura. Foquei meus olhos diretamente no fundo daqueles olhos azuis e perguntei:
_ Você tem certeza disto?
_ Do que?
            Eu sorri, ela estreitou os olhos.
_ Lutar pra valer?
            Ela me olhou seriamente por alguns segundos, se aproximou lentamente, me espreitando, franzindo levemente a testa. Então ela ergueu o queixo e disse:
_ Tenho! – e sorriu. Um sorriso que se abriu aos poucos até conseguir meabobalhar.
            Ela voltou a postura de defesa/ataque, típica do Muaythai, os joelhos flexionados e esperou. Ataquei. Foi um golpe rápido, com a mão reta, pra acertar bem abaixo das costelas dela. Mas a moça desviou rápido ao mesmo tempo que tentou me socar também. Eu passei a bloquear todos os golpes e ela fazia o mesmo comigo, porém com um pouco mais de dificuldade.
            Até que ela tentou acertar o meu estomago com o joelho e eu, de forma instintiva, para bloquear o golpe, agarrei a articulação de sua perna e coxa, atrás de seu joelho e… Bem, eu deveria tê-la jogado no chão ou a afastado, simplesmente.Mas ao invés disso eu a puxei pra mim, levando a perna dobrada dela ao lado do meu quadril e prendendo seu braço direito atrás das costas. Com aquilo, ficamos em uma posição que me lembrava tango. Ouvi ela exalar fortemente enquanto tentava se mexer pra se livrar do meu aperto, mas eu havia feito perder qualquer equilíbrio que poderia lhe dar a força necessária para sair dali.
_ Chão! Leva pro chão! – Eu ouvi o loiro gritar desesperado pra ela.
            Ela então virou o rosto de frente para o meu e estava muito perto… o nariz a milímetros de encostar no meu, os cílios tão mais nítidos… Eu me mantive firme, e com uma força descomunal, não olhei pra boca, somente para os olhos. Mas ela pareceu seguir a orientação do professor e, repentinamente, impulsionou o próprio corpo contra o meu, levando-nos ao chão, com ela por cima. Minhas costas bateram com um baquesurdo e  ai das minhas costelas se não estivéssemos em um tatame.
            Ela se moveu rápido, ficando entre minhas pernas e apoiando o braço no meu pescoço. Mas deixou minhas mãos livres. Eu sabia queno Muaythai, a luta não é no chão. Eu era maior e mais forte e o chão era meu domínio. A peguei pelo ombro e inverti as posições. Foi difícil, ela fugia facilmente, mas não demorou muito eu tinha a cintura dela presa com minhas pernas e uma chave de braço no seu pescoço. Ela bufou forte e deu três tapas no meu braço, declarando minha vitória. A soltei e ela rapidamente saiu de perto de mim. Houve um burburinho entre o pessoal que assistia, mas logo eles foram se dispersando.
            Ela se levantou, enquanto eu continuava sentado a observando, sem saber muito bem como agir depois daquilo. O treinador loiro, que ela chamou de Bryan, se aproximou imediatamente dela falando rápido. Ela apenas acenava com a cabeça. Então ela se virou pra mim e eu finalmente me levantei. Ela curvou o corpo em minha direção no tão comum comprimento entre os oponentes de uma luta de artes marciais. Fiz o mesmo.
_ Isto foi bom… você me parece realmente invencível nestes quesitos… - Ela disse, me brindando com um sorriso cansado e me oferecendo a mão. Eu a apertei meio constrangido… eu nunca havia lutado com uma mulher… muito menos uma mulher bonita… menos ainda com uma mulher tão… tão… intelectual?
            Ok, cenas de filme não contam, são coreografadas.
            Eu sorri.
_ Você também é muito boa… não esperava isto.
            Ela ergueu as sobrancelhas não parecendo acreditar nem um pouco, novamente eu senti um ar de desconfiança nublar os olhos dela.
_ É sério! Eu…
_ Mulheres podem ser boas de luta…
            Opa, ela estava levando para o lado errado.
_ Eu sei disto. – Eu respondi, um pouco mais impaciente do que deveria. – Mas você não é do perfil que esperava… - olhei pra ela que ainda tinha os olhos estreitos pra mim. - … esquece!
            Ela sorriu e o sorriso me incomodou. Pois eu não poderia considerar uma vitória vence-la em uma luta, uma vez que eu era muito bem preparado para aquilo… mas ela podia considerar uma vitória me deixar sem palavras e confuso na frente de um bando de gente.
            Ela soltou o cabelo e os sacudiu com as mãos, virando as costas e indo em direção aos armários.
_ Foi uma honra lutar com você, Lautner. – Ela disse.
            Eu deixei de olha-la e sacudi a cabeça pra por meus pensamentos no lugar. Certo: eu a havia conhecido em um evento glorioso, em que ela estava gloriosa e, admitia, ficado fascinado por ela. Depois eu passei assistir coisas que ela havia produzido e gostar destas coisas mesmo que não tivessem nada a ver com os meus interesses. Depois de dois anos a encontro em uma academia da minha cidade, luto com ela, venço e fico pra trás como um idiota enquanto um loiro imbecil, que se diz treinador, me encara parecendo prender o riso?
_ Tudo bem… ela costuma ser impactante quando quer. – Ele me disse, sorrindo.
            Eu, que havia ido até ali pra me descontrair e relaxar estava saindo bufando de raiva, Deus sabe do que! No final das contas, aquela deusa brasileira era o cúmulo da arrogância! Não me dei o trabalho de responder o treinadorsinho e saí dali pisando duro.
            Cheguei na seção dos armários, respirando fundo e repetindo a mim mesmo que não havia razão para estar tão enfurecido. Catei minhas coisas de dentro do armário e bati a porta com força demais, causando um estrondo.
_ Wow… nervoso? – Uma voz risonha soou atrás de mim.
            Ótimo Taylor, feche os olhos, respira fundo e finge calma e educação.
_ Não… só não controlei a força. – Me virei para encarar a digníssima Diana com um sorriso que eu tinha fé que era educado… e só!
            O olhar descrente que ela me lançou e o ar de riso que me deu me fez querer encostá-la no armário e esgana-la. Ela baixou os olhos e passou a mão pela alça da sua bolsa em seu ombro. Estávamos só nós dois ali.
_ Então… você se lembra de mim? – Ela perguntou. Quando ela voltou a me encarar, seus olhos estavam sérios novamente, ela parecia ansiar por aquela resposta.
_ Diana Moreno, brasileira, produtora e roteirista de “O tesouro do Mundo”, documentário vencedor do Oscar há dois anos. – Eu disparei pra ela.
            Ela deixou o queixo cair e exalou.
_ Nossa…
_ E você, se lembra de mim? – Perguntei, por perguntar. Eu tinha certeza que ela sabia quem eu era, já havia deixado isto bem claro.
_ Mas é claro. Taylor Lautner, o lobo sarado da Saga Crepúsculo, eterno astro teen e… astro de filmes de ação?
            Não podia ser só impressão minha. A voz dela exalava deboche. Aquela frase, dita como foi dita, me colocou em uma posição inferior a dela em aspectos profissionais. Porque era comum, naquele mundo, os intelectualóides do cinema acharem que atores de filmes de ação tinham músculos e agilidade, mas não tinham cérebro. Ela parecia fazer parte deste grupo.
_ Resumidamente… este é o meu currículo.  – Respondi, tentando a todo custo manter a expressão amena.
_ Hummmm… e você anda tendo muitos projetos ultimamente? – Ela perguntou, repentinamente mais branda, se encostando no armário perto do que eu estava parado em frente.
            Eu podia dar qualquer desculpa e ir embora, acabando de vez com aquela conversa. Mas não consegui.
_ Não muitos… na verdade, cansei da minha folga e estou procurando algum trabalho… até… - Eu olhei pra ela e vi algo passar por seus olhos rapidamente, não consegui identificar muito bem o que.
            Ela sorriu e, mesmo que eu a estivesse achando muito prepotente, eu não podia não me abalar com a beleza daquele sorriso. Ela tirou a franja da frente dos olhos e colocou atrás da orelha em um movimento lento demais.
_ E você encontrou algum? – Me perguntou, me parecendo interessada. Ela desencostou do armário e o movimento a fez se aproximar mais de mim.
            Eu pensei seriamente na resposta que daria. O problema era que eu estava me sentindo um tanto pressionado por ela… eu não queira dizer que estava sem previsão pra nada há mais de seis meses e então, eu menti, o que mais tarde eu descobri que foi o meu grande erro.
_ Não. Mas tenho algo em vista.
_ É mesmo? – Ela disparou a pergunta me parecendo ainda mais interessada. – E você acha que vai conseguir isto?
_ Bom… - eu estranhei o rumo da conversa. Na verdade eu estranhei tudo aquilo que estava acontecendo. –Depende de algumas coisas ainda. – tentei ser evasivo, pra que ela não captasse a mentira.
_ De que tipo de coisa? – Ela perguntou, os grandes olhos me espreitando incomodamente.
_ Bom, você sabe… é da área…
_ Sim… eu sei…
_ Falta a parte deles… aprovações, este tipo de coisa.
            Ela riu. Um riso de escarnio.
_ E você acha que vai ser … aprovado? – Novamente o tom de deboche, como se a ideia de eu ser aprovado em algo fosse um absurdo. Me enfureci.
            Fechei um pouco a distância que havia entre nós e parei a apenas uns vinte centímetros de encostar nela.
_ Não sei… mas me diga você. Acha que eles me aprovariam? – Perguntei diretamente pra ela.
            Ela deu um passo curto a frente, engolindo em seco, sua expressão mudou de água para o vinho, ficou novamente suave e ansiosa. Ela fez um movimento com a boca, umedecendo os lábios com a língua, disparando a minha atenção diretamente pra lá. O corpo dela perto despertou muitas coisas em mim, inclusive pelo fato de que eu estava a um bom tempo em “jejum”, se é que vocês me entendem.
A lembrança fresca da sensação do corpo dela em cima do meu em um tatame também não me ajudou muito.
_ Eu não sei… do que depende a sua aprovação? – Ela sussurrou pra mim, a voz causou formigamento até atrás dos meus olhos, se era possível.
_ Bem… eu também não sei… - Eu sussurrei de volta. Ela queria algo comigo? Era impressão minha ou ela estava me dando mole? Bem, não seria a primeira… não duvidei muito disto. E arrogante ou não, seria maravilhoso sair da seca com uma mulher tão atraente e arrebatadora como ela. 
            Eu experimentei levantar os meus dedos e tocar os braços dela. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Deu um sorriso novamente, mordendo os lábios e me perguntando com uma voz ainda mais baixa…
_ E você acha que a sua beleza poderia… facilitar a sua… - ela repetiu o mesmo movimento que eu estava fazendo com ela e acariciou meus braços com as pontas dos dedos, acompanhando as curvas dos meus músculos. Eu fechei os olhos apreciando mais do que deveria aquele toque. - … você acha que a sua beleza poderia facilitar a sua contratação? – ela disse, soltando um risinho frouxo depois.
            Eu ri junto dela, e voltei a encará-la. Dei um sorriso sapeca, louco pra acabar com qualquer conversa e encostá-la no armário e… bem, não seria para esganá-la.
_ Não sei… o que você acha?
            Mas assim que eu disse aquilo, a face dela se contorceu em uma expressão de puro nojo e asco. Ela se afastou e disse, ainda em tom baixo, mas friamente cortante:
_ Eu acho que você acabou de cavar sua sepultura, Lautner! – Virou as costas e saiu.
            E eu fiquei lá, parado igual um idiota confuso, completamente sem palavras e ação pela segunda vez na mesma noite, por causa de uma única mulher.
            Realmente, academias relaxam!
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_ Vochê está obchecado! Ischo shim! – Nikki resmungava com a boca cheia dos meus biscoitos prediletos, que ela tinha pego na minha cozinha, sem minha autorização.
            Eu roubei o pote dela novamente, a fazendo resmungar.
_ Não estou obcecado coisa nenhuma! – Eu respondi, enfiando um biscoito na minha própria boca.
            Nikki estava de passagem ali no meu apartamento, enquanto seu marido tinha ido em alguma produtora ali por perto. Depois que nos conhecemos, nossa amizade nunca esmaeceu, por assim dizer. E como se não bastasse os cinco anos convivendo nos sets de Crepúsculo, depois de três anos que a saga havia terminado, fizemos outro filme juntos, em que fomos irmãos adotivos.
_ Ah, conta outra! Tay, desde aquele dia que você a viu pela primeira vez que você, vira e mexe, fala dela. Veja bem, eu assisti o tal documentário lá exclusivamente por causa da sua propaganda. E agora, desde que eu entrei aqui na sua casa, depois de um mês sem te ver, você só me falou dela! Deu pra perceber?
            Eu sacudi a cabeça.
_ Mas é que ontem… ela me disse… eu não entendi! – Nikki curvou a cabeça pra trás e gargalhou da minha nítida perturbação.
_ Olha Taylor, eu realmente acho a mulher um espetáculo da beleza feminina, sou segura o suficiente pra afirmar isto, o nível de inteligência dela deve estar bem acima da média, mas… esquece ela, ok? Só pelo que você me contou eu sei que ela é encrenca, osso duro de roer. Vai por mim… eu conheço minha própria espécie.           
            Eu fiquei olhando vazio pra cara de Nikki por um tempo, pensando, pra depois dizer, num estalo:
_ Será que ela é bipolar?
            Nikki rugiu e pegou uma almofada do meu sofá e atirou pra cima de mim.
_ Olha, eu vou embora. Quando você conseguir desvendar o enigma “Diana Moreno”, a gente se fala novamente.
_ Nikki… espera… - Eu larguei o pote de biscoitos no chão e corri pra alcança-la, quase na porta.  – Você não vai esperar o…
_ Não, não vou esperar meu amor vir me buscar, vou de encontro a ele. Sério cara, você tá um porre. – ela riu e me beijou a bochecha. – Tira ela da cabeça ou você vai enlouquecer… sei lá, saí por aí e cata a primeira bonitinha que te der mole, porque isto, na minha opinião, é a falta…
            Ela mesma abriu a porta e saiu me soprando um beijo. Eu, sem a menor cerimônia, mostrei o dedo pra ela e fechei a porta rindo.
            E eu estava sozinho de novo e sem nada pra fazer uma vez que eu recusei todos os convites para aparecer em eventos nos últimos dias. Me joguei no sofá, olhando para o teto, mas logo tive que levantar pra alcançar meu celular do outro lado  da sala, que estava tocando em uma altura insuportável.
_ Al… - não deu nem tempo de eu terminar de falar pra ser atropelado com uma enxurrada de palavras:
_ Por que você recusou TODOS os convites que eu passei pra você, sem me avisar antes? – Julie, minha nova empresária, dizia histérica do outro lado do telefone.
_ Julie! Não estou a fim deste tipo de coisa... não acho que aquele tipo de festa vai me garantir um bom trabalho. – Ela bufou. – E então… tem alguma novidade pra mim? – Perguntei, morrendo de ansiedade. Eu tinha que começar a ocupar minha mente com coisas que prestassem.
_ Bom… aí é que esta Taylor… tenho uma bomba! – Ela disse, e eu logo reconheci a voz de excitação máxima da minha empresária… Eu até me sentei pra ouvir o que ela tinha pra me dizer, pois ou era algo muito bom ou muito ruim.
_ Diga…
_ Warner! – Ela disse, fazendo uma pausa dramática do outro lado da linha. – Uma super-produção da WarnerBros.! Os caras estão investindo bilhões em um roteiro, que parece ser a promessa dos últimos tempos.
_ E aí?! Vá direto ao ponto, Julie.
_ Calma homem! É o seguinte, estou com uma boa papelada aqui comigo, mas temos que conversar isto pessoalmente… senão não dá pra explicar tudo. Então eu tomei a iniciativa de ir ao seu apartamento… você está em casa?
_ Sim, estou… - respondi impaciente. Julie com certeza estava com alguma coisa pra mim, algo que ia mais além do que mera especulação.
_ Ótimo! Então abra a porta pra mim, estou dentro do elevador! Até daqui uns minutinhos! – Ela disse isto e desligou.
            Julie Hortzera uma mulher e tanto, trabalhava muito bem, tinha excelente competência. Eu conheci ela a um bom tempo, mas só decidi trabalhar com ela depois que tive sérios desentendimentos com meu último empresário. Era tinha 45 anos, era divorciada e tinha dois filhos, um de 16 e outro de 12. Ela e minha mãe haviam se tornado amigas de infância do dia pra noite. E, para mim, Julie acabou por se tornar uma ótima amiga e conselheira.
_ Hey gatão!
            Eu ri quando ela disse aquilo, passando por mim rapidamente assim que abri a porta e ocupando a mesa de centro da sala com inúmeros de seus papéis.
_ Senta, senta, senta… - Ela disse, apontando um lugar na frente dela. Julie pegou os seus óculos de aro verde e colocou-os na ponta do nariz enquanto vasculhava pelos papéis que ela espalhou por ali… Certo, ela não era muito organizada.
_ E então? Do que se trata especificamente a produção da…
_ ACHEI! – Ela berrou, quase me fazendo saltar pra trás. – A sinopse! Tome, vai lendo enquanto eu explico. – Ela me tacou o papel na cara e endireitou a postura. – O filme não é especificamente de ação, embora tenha muita ação. É um épico… a história em si, a base de tudo, não é algo inédito. O que é inédito é a forma como tudo está sendo organizado, os pormenores, a trama, o enredo… A equipe técnica já está toda formada, trabalhando na pré-produção, alguns atores foram contratados… mas ainda faltam alguns… na verdade faltam os principais.
            Enquanto Julie tagarelava eu lia atentamente a sinopse, que por sinal, estava muito bem escrita.
_ É uma história muito boa… - eu disse, já completamente envolvido no que li, tentando imaginar que personagem eu poderia fazer ali.
_ Muito boa não, a história é espetacular! E a equipe técnica formada para a produção é uma das melhores que já vi! Só pra ter uma noção, Christopher Nolan é o diretor e Emma Thomas a diretora de produção. E foi ela, a Emma, que veio me procurar recentemente para avisar que você, você, havia sido cotado para o papel principal, Taylor… o papel principal! – Julie estava me deixando ainda mais eufórico com tudo aquilo.
Eu voltei meus olhos para o texto da sinopse.
_ Axel? – Eu perguntei, lendo mais atenciosamente o trecho que falava deste personagem… uma figura nada fácil. Segundo o texto, Axel primeiro teria de convencer o público de sua maldade e depois demonstrar confusão e insegurança sobre seu próprio caráter, para só então se tornar o Soberano herói. Ele teria várias fases, muitas emoções o dominando, em um único filme. Não era triologia, não tinha sequência. Seria tudo aquilo em um único filme. – Ual...
_ Sim… ual! Até onde eu pude pesquisar, os rumores de dentro da Warner diz que os executivos querem investir para produzir algo que arrebente de ganhar Oscar… na maior quantidade de categorias possível… inclusive a de melhor ator! Tudo isto, é claro, é só uma esperança… mas por todo o peso que este filme tem por trás das câmeras…
_ É um excelente trabalho… - eu completei, fazendo Julie sorrir e sacudir a cabeça euforicamente, dizendo que sim. – E quando nós vamos falar com a equipe da produção? Quando vão me passar o roteiro e… – Eu levantei, já ansioso, já me vendo fazendo aquilo, já querendo saber mais sobre o personagem, mas então eu olhei pra Julie e recuei com minha expectativa. Ela estava mais cautelosa em sua euforia.
_ Ok. Qual é o porém? – Perguntei, adivinhando que Julie tinha um “mas” para me apresentar.
            Ela torceu os dedos e vasculhou novamente em seus papéis.
_ Bom… é que, como eu disse, a equipe técnica é bem boa mesmo e, consequentemente, eles são bastante exigentes. Então eles querem ter certeza que o papel e o ator “casam”. Então eles cotaram você, mas também cotaram outros. – Julie fez uma careta e eu voltei a me sentar. – Emma me disse que se você quiser tentar o papel terá de estudar o personagem e fazer um teste. Ela disse que alguns atores já tinham sido escalados como perfeitos, mas nenhum deles tinha espaço pra outro trabalho… então eles estão procurando outro.
_ Um teste? – Eu perguntei. Nem sequer me lembrava de como era fazer um teste, pois nos últimos tempos eu era simplesmente chamado para fazer os filmes.
_ Sim, um teste com outros quatro concorrentes. A notícia boa é que não é nenhum concorrente alcançou a super-fama. A notícia ruim é quesão todos atores muito bons mesmo, escolhidos a dedo, mas todos eles participaram só de produções independentes, teatro, musical… ah, tem um que estava fazendo uma série da CBO, você deve conhecer.
            Julie me passou uma lista com os nomes e currículos dos meus “concorrentes”, eficiente como era, ela já sabia de tudo. Eu fiquei analisando aquilo um tanto mal-humorado. Eu já tinha mais de quinze filmes na carreira, o que era um bom tanto de material para quem quer que fosse, pudesse analisar o meu trabalho.
Para um ator com a minha experiência, fazer um teste era como regressar a uma posição de iniciante… eu sentia como se tudo o que eu fiz até então havia sido desconsiderado por quem quer que estivesse montando o casting para o filme.
_ Hey, Taylor… por que esta cara?Olha, você não precisa ficar ofendido nem nada… na verdade este é o tipo de coisa que acontece quando a preparação para um filme é de tão alto nível. Eles querem ter certeza de cada detalhe…
_ Então quer dizer que eu e estes outros caras somos a segunda opção? – Eu perguntei, interrompendo a falação de Julie. Ela respirou fundo e levou as mãos aos cabelos, os torcendo até formar um coque.
_ Taylor, analise bem as coisas… sinta o cheiro de coisa grande. Nestas condições, não importa como a oportunidade vem, mas simplesmente que ela está aí, nas suas mãos. Passar neste teste e fazer este papel dará um novo folego na sua carreira. Taylor, eu estou apostando nisto, porque pra mim sua carreira precisa se elevar a um outro patamar… em uma coisa mais… complexa e subjetiva. Sabe, isto será excelente pra você, será a tacada final para tornar seu nome uma lenda! Pá! – Julie fez um gesto espalhafatoso com as mãos me fazendo rir. – Aqui… deixa eu ver… achei! Leia este texto, é exclusivamente sobre o personagem que você foi cotado pra fazer.
            Julie estava certa em cada palavra que disse, claro. Não demorou muito, eu já estava ansioso pra fazer aquele teste. Eu peguei o texto que ela me deu, que tinha algumas boas páginas, e me joguei no sofá pra ler enquanto Julie se enfiou pra dentro da minha casa dizendo que iria preparar alguma coisa pra gente comer de almoço. Eu li todo o texto avidamente, nem senti o tempo passar. Só então eu pude entender a verdadeira complexidade do personagem, principalmente na sua primeira fase e em sua transição para passar de vilão a herói da história.
            E além disto tudo, eu fiquei maravilhado com a forma como o texto foi escrito. Era tudo muito… inteligente. O texto parecia ter uma personalidade própria, havia um cuidado no uso das palavras, no fluxo de ideias que fazia até mesmo uma coisa simples parecer monumental. Quando eu terminei o texto, fui caçar no meio dos papéis de Julie o roteiro, não demorei a achar. Era enorme… gigantesco. Aquilo deveria dar umas três horas de filme. Não ia dar pra ler tudo aquilo tão rápido. Eu folhei apenas passando os olhos até chegar a ultima folha, onde eu estaquei.
_ Taylor… quem fez as suas compras? A Deborah? Nossa, tem muita coisa boa e saudável na geladeira, não pode ser coisa de homem tudo aquilo. Deu pra fazer um almoço bem gostoso e… ei!!!Tô falando com você!
            Pra mim, o que a Julie dizia não fazia o menor sentido, porque todas as engrenagens do meu cérebro estavam compreendendo mil coisas a partir de um único nome que li no final daquele roteiro…
_ Diana Moreno… - eu sussurrei.
­ _ Oh, claro. É a roteirista principal. Sua chefa, já que ela é a “dona da história”.
_ Ela é a roteirista? – Eu perguntei, engolindo em seco…
“Eu acho que você acabou de cavar sua sepultura, Lautner…”
_ Sim… algum problema?
_ Todos,Julie! Todos! – eu exalei forte, quase arrancando meus cabelos com as mãos.
            E só então eu entendi todas as coisas que aconteceram entre eu e Diana na noite anterior. Merda! Ela tinha entendido tudo errado!

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