31 março 2014

Fanfiction: Caras e bocas: Capítulo 16 – Parte II


Realmente não sei se aguento o estresse de ficar no meio de um monte de gente realmente doente, esperando que um médico me atenda.

-Será que dá para parar de ser mesquinha e ouvir o seu irmão? –disse o vendedor, saindo de frente de seu computador e parando as minhas costas, com apenas o balcão nos separando. E mais uma vez naquele dia, me virei para encarar a pessoa que impregnava toda sua raiva nas palavras ao se dirigir a mim.

Anthony se adiantou para ele, estava prestes a falar algo, quando coloquei a mão em seu peito para tentar para-lo, e isso bastou para que meu irmão calasse as palavras que estava prestes a pronunciar. Aquela discussão era minha e somente minha.


-Quem você pensa que é para falar assim comigo? Quem você pensa que é para se intrometer na minha vida desse jeito?

Vi a raiva obscurecer seu ser, enquanto seus olhos pareciam soltar raios de puro rancor. Por um momento, temi que fizesse algo contra mim, mas me surpreendi ao vê-lo abaixar-se atrás do balcão e levantar-se logo em seguida, segurando um porta retrato simples e uma revista desgastada. Jogou a revista para mim, mas ela acabou por cair no chão e aquele que possuía olhos iguais aos meus, correu para pega-la.

A revista foi-me entregue, com um olhar sombrio vindo de Anthony. Abaixei dos olhos para a revista e meu coração perdeu um compasso, ao deparar com a capa da Faces and Mouths, que falava sobre meu quase estupro e sobre meu salvador.

-Isso é verdade? –o vendedor perguntou rudemente.

Apenas assenti, ainda encarando a revista, pois não havia nada a fazer além disso. Mas minha atenção não ficou na revista por muito tempo, já que uma foto foi delicadamente posta em minha mão, cobrindo a capa da revista.

A foto era de uma garota loira arruivada, com cabelos lindamente cacheados, pele bronzeada e olhos de um castanho intenso e ela segurava um livro nas mãos, um livro que reconheci como Para Sempre, de Alyson Nöel.

-Essa era minha irmã, Emma. Ela era muito fã dessa série que você está gravando e te admirava por estar trazendo a vida uma personagem incrível como a...

-Ever. –completei sem saber onde ele queria chegar.

-Isso. Um dia depois dessa matéria aparecer na revista, Emma foi violentada enquanto voltava para casa. –e aquelas palavras doeram como se fossem facas atravessando meu coração. –Os assassinos usaram objetos para violenta-la, antes de se deleitarem no corpo de minha irmã. Não sei de onde veio a denúncia, só sei que ela foi encontrada morta em uma casa abandonada, aos arredores da cidade. –fique completamente paralisada, aterrorizada demais, por pensar que aquele poderia ter sido meu fim, e que aquele não seria o último ataque a mulheres no mundo e que muitas ainda sofreriam por esse mal.

Horrorizava-me saber que coisas como essas aconteciam frequentemente. Com tantas coisas boas na vida, como poderíamos nós, humanos, fazermos coisas tão terríveis como essa? E saber que as pesquisas apontavam que os estupradores eram em geral pessoas com boa vida, me enojava de minha própria raça, pois estas eram pessoas que realmente não tinham o que reclamar da vida, mas ainda assim reclamavam e cometiam temeridades como essa.

As primeiras lágrimas desceram quentes e lentas por meu rosto. Nada me entristecia mais que descaso com a vida, com os sentimentos e dores de outros seres vivos. Nisso, uma pressão enorme tomou conta de meu peito, transformando minhas leves lágrimas em um choro incontrolável. E pensar que aquela garota poderia ser eu!

Larguei a foto e a revista em cima do balcão, antes de me jogar nos braços de meu irmão e chorar toda minha dor. Lembrei de cada momento que passei naquele horrível dia, lembrei de como me jogaram no chão e da dor que atingiu minha cabeça, quando ela bateu no chão. E para ajudar, minha traiçoeira mente imaginou como teria sido se Taylor não tivesse chegado, como teriam me batido e rasgado tudo o que tinha, antes de se aproveitarem de meu corpo, como eu me sentiria fraca após o acontecido e como adoeceria ao ficar largada naquele beco, por não ter forças para nada. Talvez até morreria se não me encontrassem a tempo, exatamente como aconteceu com Emma.

-Chega! –e desta vez não teve quem impedisse que Anthony falasse. –Não vê como ela está sofrendo? Peça desculpas! Se redima por tê-la lembrado desse dia!

-A vida te deu uma chance. –insistiu o vendedor. –Aproveite-a, não faça as coisas que coloquem sua vida e saúde em risco, só porque planejou essas coisas.

Não vi quando ele atravessou o balcão, apenas senti mãos fortes me tirando dos braços do meu irmão e segurando meu queixo, fazendo com que eu olhasse para cima e encarasse olhos cheios de dor. E naquele momento eu soube que também sofria por mim, que ele via em mim, sua irmã que fora morta por algo que quase aconteceu comigo.

Aos poucos minhas lágrimas foram parando e eu meu soltei de suas mãos, peguei na mão de meu irmão e o puxei para fora da loja, exatamente como ele tentara fazer muitas vezes comigo, minutos antes.

Mal via por onde andava. A sorte, era que eu havia decorado todos os estabelecimentos comerciais, de tantas vezes que já passara por ali. Sabia da loja de suvenires, da pizzaria, da loja de calçados e de tantas outras que haviam por ali, mas nenhuma delas me importava, nenhuma a não ser... Andei uma quadra e meia, até chegar à maior farmácia da região. Quando um dos farmacêuticos meu viu, ficou assustado com meu estado e rapidamente me levou para a sala de pré-exames deles e meu colocou sentada em uma cadeira, perguntando o que acontecera.

Contei sobre o desmaio e sobre como o calor me afetava. Ele tirou minha pressão e se assustou ao ver o quão baixa estava. Perguntou se me alimentei pela manhã e Anthony denunciou minha falta de apetite, assim como denunciou meus maus hábitos alimentares, ao falar do hambúrguer da noite anterior. Depois de todas essas perguntas, o farmacêutico me liberou, dizendo que eu deveria comer alguma coisa saudável. Estava prestes a sair, mas ele fez questão de retardar meu passo e perguntar em voz baixa como andavam minhas... “regras”. Aquela pergunta me pegou totalmente desprevenida, tive de pensar por um longo tempo antes de dizer que já tinha passado cinco dias desde que parei de tomar eu contraceptivo e nada acontecera, sendo que o normal era descer três dias após eu parar de tomar a pílula.

Saindo da farmácia, fomos a uma lanchonete, onde me acabei num sanduíche natural, mas não parei de pensar na pergunta que o farmacêutico fizera.

Aquilo ficou rondando minha mente, me tentando a falar algo para Anthony, mas me segurei, pois sabia que ele surtaria e perguntaria se eu tive relações sem proteção e surtaria mais ainda, quando eu lhe contasse com quem foi. Ele com certeza o mataria se a suspeita fosse confirmada.

-Anthony, o que queria falar comigo que tinha que ser longe da mamãe e do papai? –perguntei, tentando tirar aquele assunto da cabeça.

Meu irmão respirou fundo, cruzou os braços e se recostou em sua cadeira, me encarando profundamente. Era um olhar opaco, sério demais para alguém eternamente alegre como ele.

-Quer mesmo falar sobre isso agora?

Assenti, largando meu sanduíche no prato, pronta para ser toda ouvidos ao que ele tinha a dizer.

-Então coma enquanto ouve. –ordenou e eu franzi as sobrancelhas, por conta de que aquele sanduíche fazia com que meu estômago revirasse. –Ou isso, ou nada feito.

-Você pode ser um irmão muito mau às vezes, Anthony. –comentei, pegando novamente o sanduíche e o mordendo pelas beiradas, sem realmente comer muita coisa.

Um grande silêncio se instalou entre nós, antes que qualquer palavra fosse proferida e agradeci aos céus por aquilo, pois precisávamos disso mais do que qualquer outra coisa. Precisávamos, ao início, nos preparar para a longa e séria conversa que estava por vir.

-Esta noite tive um pesadelo. –Anthony começou com a voz suave, como orvalho da manhã. –Nele aqueles... bandidos, te encontravam e faziam com você tudo o que não fizeram naquela noite em que Lautner te salvou. Foi tão real, tão horrível, que tive que te ver assim que acordei, porque aquilo me assustou muito. –mais um longo silêncio, uma longa e fria dor e um sanduíche revirando no estômago. Parei imediatamente de comer e passei o dedo indicador da barriga até a garganta, falando silenciosamente que se comesse mais, vomitaria. –Tudo bem. –meu irmão concordou com minhas silenciosas palavras, antes de continuar. –E quando você fez aquela brincadeira sobre sair só de biquíni nas ruas, aquele sonho voltou a minha cabeça rapidamente e fiquei extremamente irritado com você, porque pensei que estava falando sério e fiquei indignado com o descaso que fazia de sua vida, pois só chamaria a atenção de mais caras como aqueles e... Não culpo mulheres que se vestem com roupas ousadas e são estupradas, mas às vezes, roupas, ou falta delas, realmente chama a atenção.

Em pleno impulso, levantei de minha cadeira e corri para abraçar meu irmão. Ao final de tudo, ele só queria me proteger de um mal que já passara e do qual eu provavelmente estaria protegida, porque depois daquela noite, nunca mais saí à luz da lua sozinha.

-Não se preocupe, agora tomo todas as precauções para não sair sozinha a noite.

Ele respirou aliviado contra meu cabelo. Nós sabíamos que aquilo não era o suficiente para afastar qualquer tipo de agressor, mas duas pessoas sempre se defendem melhor que uma, então, já estava valendo.

-E você fez a denuncia? –perguntou, se soltando de meu abraço.

Aquela era uma pergunta extremamente difícil de responder, porque eu não havia feito denuncia alguma, mas tinha meus motivos e não sabia se uma lanchonete seria o lugar ideal para contar aquilo ao meu irmão.

-É complicado.

-Como assim complicado?

Se me perguntarem, realmente não sei descrever qual foi a cara que fiz diante dessas, digamos, suaves palavras do meu irmão, só sei que me afastei dele e voltei a sentar no meu lugar e fiquei fitando a parede. E assim foi por muito tempo. Novamente, ninguém disse nada, apenas meditamos sobre nossas questões internas, nesse novo silencio.

-Não vai me responder? –Anthony me perguntou depois de vários minutos.

Mordi o lábio, pensando numa maneira simples de dizer aquilo, mas não encontrei. Teria de ser o jeito difícil. Me aproximei de meu irmão, com o intuito de que ninguém além dele pudesse me ouvir. Era muito perigoso revelar aquele segredo e preferia fazer isso em um local privado, mas do jeito que aquele que me perguntava era, ele não sairia do lugar sem uma resposta.

-No dia seguinte ao ataque, fomos almoçar em um restaurante e um dos agressores me viu e ele fez ameaças a mim e ao Taylor. –segredei-lhe aos sussurros. –O médico que me examinou também contou a história à imprensa, por isso a matéria na revista. Não posso garantir que a polícia mantenha meu depoimento anônimo, pois assim como o médico contou, qualquer outro pode contar.

-Isso é loucura! –ele gritou, após ouvir minha história.

Dei um tapa na parte de trás da cabeça dele e puxei sua orelha para perto de meus lábios.

-Está querendo chamar atenção? Isso é perigoso. Não ouviu o que eu disse? –e soltei sua orelha, deixando-o livre para se recostar na cadeira novamente.

O “senhor discreto” ficou um tempão massageando a orelha e a nuca ao mesmo tempo, ou ao menos tentando fazer isso, já que não tinha coordenação o suficiente.

-E não tem como pedir para os policiais assinarem um termo concordando em não falar nada? –perguntou em voz baixa, após algum tempo.

Respirei fundo, antes de responder. Sabe, às vezes meu irmão, apesar de sua grande genialidade, era muito ingênuo. Ele realmente acreditava na bondade das pessoas e isso só o fazia se ferrar constantemente, mas ele nunca aprendia.

-Quando a mamãe ia fazer nossa matrícula na escola, tinha um termo que dizia que não podíamos levar celular ou qualquer aparelho eletrônico para escola. –comentei, aumentando o tom de voz, pois as palavras já não eram algo comprometedor. –E mesmo assim você nunca deixou de levar seu celular.

-Ok, mas o que isso tem a ver com a conversa?

Apertei a ponte do meu nariz e fechei os olhos, tentando absorver a burrice de meu irmão.

-O que eu quero dizer, é que regras, leis, termos e etc, são para serem quebrados. E no mundo, há pessoas que são facilmente subordinadas. Entende isso? –e abri os olhos, encarando os de meu irmão, profundamente.

Ele assentiu, franzindo o cenho, como se nada daquilo que eu tivesse lhe dito fizesse sentido.

-Ainda acho que é loucura. –falou, por fim. –Mas confio em você e no que está fazendo.

E depois disso houve um terceiro longo silencio. A conversa tinha acabado e não tínhamos mais nada a discutir ou fazer e, por conta disso, ficamos mergulhados no mar das músicas que não podiam ser ouvidas ou recitadas: nossos pensamentos. Mas fiquei extremamente feliz, pois eu finalmente havia contado a alguém de minha família, o que acontecera no dia após o ataque.

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-Você tem certeza de que realmente quer fazer isso? –Anthony me perguntou pela milésima vez.

Apenas olhei de canto de olho para ele. Já havia tomado minha decisão e nada me faria mudar de ideia. Aquelas eram nossas férias, um dos únicos momentos em que éramos capazes de nos divertir juntos, irmão e irmã e não seria um desmaio a estragar nossa diversão na praia.

-Vamos logo. –falei, entrando na mesma loja em que havíamos entrado mais cedo.

O sino da porta soou e o vendedor ergueu seus olhos do que quer que ele estivesse fazendo no computador, para ver quem chagava. Quase vibrei de felicidade, quando ele nos olhou cheio de surpresa.

-O que fazem aqui?

Me aproximei do balcão como uma cobra: rápida e pronta para dar o bote.

-Não pense em fazer desaforos. Tive minha consulta e o diagnóstico foi que tive apenas uma queda de pressão. Estou bem agora e vim aqui para ter aquilo que você me negou há uma hora atrás, com aquele seu papinho que me assustou.

O vendedor ficou atônito ante ao meu ataque verbal a ele. Ficou parado, me encarando sem saber o que fazer e tive de me segurar muito para não desfazer minha cara séria e cair na gargalhada.

-Vamos, faça seu trabalho e pegue as mesmas coisas que pedi hoje mais cedo!

Mesmo depois destas palavras, ele não se mexeu ou teve reação alguma. Era estranho e eu estava começando a ficar realmente preocupada, mas ainda assim mantive minha face séria, pois isso podia ser só mais um joguinho dele.

Anthony se aproximou de mim e colocou uma mão em meu ombro. E não precisei olhar para trás, para saber que ele também encarava o vendedor. Agora, éramos uma família unida contra uma pessoa prepotente, e essa pessoa prepotente, teria de fazer seu trabalho.

-Hã? –o vendedor conseguiu “falar” após algum tempo de atordoamento.

Retomando um gesto de infância, bati em minha testa e escorreguei minha mão pelo resto do rosto, para demonstrar minha indignação, ante tanta babaquice.

Respirei fundo, contei até dez, cerrei os punhos, os dentes e tentei de tudo para conter minha raiva, antes de apertar a mão de meu queridíssimo irmão – que até agora não servira para nada – e voltei a me direcionar ao vendedor.

-Você pode, por favor, pegar uma barraca, duas pranchas, e duas cadeiras? –pedi com delicadeza.

E finalmente a pessoa estátua resolveu sair de seu modo imóvel e começou a ficar vermelho, e eu esperava que esse vermelho do rosto dele fosse de vergonha pelo modo como ele agira mais cedo e pelo modo que agiu há minutos atrás.

-Como assim veio aqui refazer os pedidos? Não era para estar no hospital? –ele perguntou, quando já parecia um pimentão maduro ou uma maçã mutante, eu realmente não sabia diferenciar.

Alguma coisa estranha aconteceu naquela hora, pois o louco que se dizia da minha família sentou no chão e começou a gargalhar, mas os sons da gargalhada dele, pareciam os mesmo sons que os macacos faziam, então foi uma coisa realmente estranha.

Me assustei muito com aqueles sons e quase saí correndo da loja, mas o que realmente aconteceu, foi que de alguma maneira, eu pulei por cima do balcão e abracei o vendedor pimentão e fiquei gritando e apontando para o macaco. E por que fiz isso? Só Deus sabe!

Depois que eu comecei a gritar, o macaco parou de rir e... Olhou para mim de um jeito estranho, só para começar a gargalhar novamente e eu fiquei com mais medo ainda.

-Chega de palhaçada na minha loja! –gritou o vendedor, desfazendo meu abraço e me colocando sentada em cima do balcão. –E você mocinha, trate de passar para o lado de lá, atrás do balcão, só funcionários!

Aquelas palavras foram para mim, a facada da realidade, a realidade de que havia passado um triste e forte momento com aquele estranho e que depois do acontecido, criou-se um muro entre nós. E a felicidade e brincadeira que se instalou ali minutos antes, ruíram em milésimos de segundos.

O ambiente ficou pesado e mais escuro, ou talvez fosse só impressão minha, mas algo mudara drasticamente. Quando entramos ali, o vendedor ficou atordoado e após nossa brincadeira, agressivo demais... Era um mistério o porquê disso, mas eu estava disposta a descobrir.

A figura revoltada e desesperada daquele homem não me causava medo ou pena, apenas me dava uma forte determinação para descobrir o que causava aquilo e eu tinha certeza que não era preocupação com minha saúde, ia muito além. Minha vida inteira tive pessoas cuidando de mim, a pobre garotinha fraca, doente e indefesa, pessoas tentando descobrir meus temores internos, me aparando no momento em que meu corpo sucumbia por conta de doenças, tentando me dizer que não podia fazer isso ou aquilo, porque meu corpo era fraco, mas agora esse tempo passara e eu era forte o suficiente para cuidar de mim mesma. Era chegada a hora de eu cuidar de alguém, e esse alguém era o abalado e desconhecido vendedor da loja de surf.

Olhei para Anthony e percebi que ele me encarava com a mesma intensidade que encarei o vendedor nos últimos segundos, e esse olhar foi o que bastou para que ele soubesse o que eu estava prestes a fazer. Sabe, sempre tivemos essa estranha ligação. Bastava um olhar para que o outro soubesse o que pensava, sentíamos as dores do outro, ficávamos doentes juntos e nos curávamos juntos, éramos, de algum modo, dois em um. Ele assentiu silenciosamente, exatamente como fiz várias vezes nessa curta manhã, antes que eu me virasse para o vendedor e me aproximasse e colocasse minha mão sobre a sua, que estava em punho em cima do balcão, e a apertasse levemente.

-Hey, se sua preocupação é comigo, está tudo bem. Fiz a pré-consulta em uma farmácia aqui perto e isso determina se o paciente deve ser encaminhado a um médico ou não, é assim nos hospitais. –enquanto eu falava, subia minha mão lentamente sobre seu braço. Meu objetivo era chegar ao rosto, para toca-lo como uma irmã, mas para isso eu precisava acalma-lo através do leve toque e meu coração me dizia que a melhor opção era essa. –O farmacêutico/enfermeiro que fez minha consulta, disse que tive apenas uma queda de pressão, ele fez perguntas e até tirou minha temperatura e nisso ele conseguiu concluir que não era nada e me liberou, me fazendo prometer que me alimentaria direito antes de fazer qualquer coisa e foi o que fiz... –minha mão estava em seu ombro, quando ele a afastou bruscamente.

Ele colocou as mãos na cabeça, fechou os olhos e deu livres passos de um lado para o outro, atrás daquele largo e impenetrável balcão. Se o muro que nos separava fosse representado por algo físico, com certeza seria esse balcão.

Ele parou, abriu aqueles lindos olhos e me encarou com olhar opaco e cheio de raiva.

-Vocês artistas são todos da mesma laia! –acusou, brandindo o indicador a centímetros de minha face. –Sempre vem um aqui, todo esnobe e cheio de si, achando que é melhor que todo mundo e que pode tratar qualquer um com desprezo e superioridade, mas quer saber? Cansei disso! Cansei de baixar a cabeça e cumprir meu trabalho, olhando para os calçados de marca de vocês. De hoje em diante, nunca mais ouvirei um desaforo de um famoso.

Respirei fundo, a fim de conseguir energias para ajudar essa mente perturbada. Concordava com o que ele disse sobre não se deixar receber desaforos de pessoas que se achavam superiores. Dignidade acima de tudo, mas não era esse o problema.

Mãos seguraram meus ombros com força. Não foi preciso olhar para trás para saber que era Anthony que me passava suas energias positivas, a fim de me dar forças para enfrentar esse estranho momento.

-Peço imensas desculpas se te esnobei, não era minha intenção, é só que você está me impedindo de aproveitar minhas férias. Se está preocupado com minha saúde, com medo de que eu passe mal e caia no mar, até aceito fazer o surf acompanhado. –e desta vez ele olhou para mim com surpresa. Talvez estivesse pensando: “O que deu na cabeça dessa aí? Primeiro ficou brigando com o irmão porque não queria uma prancha longboard, queria uma evolution, que permite o surfista a fazer mais manobras e agora quer o surf acompanhado, pois é mais seguro? O que é isso?”. Ignorei o espanto dele e apontei o cartaz que estava na parede atrás do balcão. –Sei que é só para crianças, mas ali diz que é até para 60 quilos e eu tenho 54, então... Tudo o que quero é me sentir deslizar sobre as ondas, isso tem efeito calmante sobre mim e estou precisando muito disso, você mesmo já viu isso na revista. –encerrei meu pequeno discurso com a cartada final.

Não queria manipula-lo, mas essas palavras acalmariam seus ânimos, eu sentia isso. De alguma forma, consegui perceber que sua raiva se desencadeou quando eu quis surfar a qualquer custo, pois naquela hora, eu colocaria minha vida em risco, não estava nada bem com aquela tontura. E agora eu estava bem, pensei que isso fosse acalma-lo. Agora era esperar ele absorver as palavras para ver sua reação.

Aos poucos sua face foi voltando a cor normal e as mãos relaxaram sobre o balcão. Ele abaixou a cabeça, fechou os olhos e respirou profundamente por um bom tempo, antes de levantar e cabeça e me encarar com olhos menos turbulentos, porém um tanto preocupados.

-Tem certeza de que está bem o suficiente para fazer isso?

-Você acha que eu mentiria para você depois daquele susto que me deu hoje cedo? –perguntei em tom de brincadeira.

Tentei ao máximo não expressar minha felicidade extrema, pois isso delataria minha pequena e involuntária manipulação, mas não pude conter um pequeno sorriso, afinal, também estava feliz por ele estar mais calmo.

O desconfiado vendedor desviou os olhos para meu irmão, esperando que ele confirmasse minhas palavras. Não sou uma especialista em Anthony, mas conhecendo meu irmão tão bem quanto eu conhecia, sabia que ele daria um de seus discursos diplomáticos sobre como cuidar de sua irmã mais nova.


Um leve aperto no ombro foi o suficiente para eu saber que aquele que era parecido comigo, queria conversar a sós com “Jude” e assim, saí e fiquei a porta da loja, apenas tentando ouvir um fragmento da conversa, mas nenhum som passou pela porta e chegou até mim.

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