07 abril 2014

Caras e bocas – Capítulo 16 – parte III


Dei uma pequena espiada por cima do ombro e pude ver que estavam conversando próximos demais, baixo demais, como se estivessem segredando algo de infinita importância e isso me assustou um pouco. Seria minha ‘segurança’ tão importante assim?

-Serena? –uma voz insegura chamou meu nome, com suavidade até agora não ouvida vindo daquela pessoa.

Virei-me lentamente, sentindo os raios de sol que batiam na porta, aquecer minha pele e dar brilho ao meu cabelo, que refletiu esses mesmos raios. Mantive um leve e sincero sorriso na face, enquanto eu caminhava lentamente até as duas pessoas que segundos antes conversavam sobre mim.


Tentei falar algo, mas uma mão foi-me estendida e a peguei em um aperto firme e delicado.

-Meu nome é Ethan Grützmacher. Hoje serei seu acompanhante de surf.

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E era tão bom sentir a água fria contra minha pele... A água salgada e que fazia arder os mínimos cortes, também refrescava o corpo e acalmava a alma inquieta. Não me contentando com ter apenas as pernas mergulhadas na água, toquei a água com a mão e esquerda e, logo em seguida, mergulhei o braço inteiro, gostando a sensação refrescante que a água causava.

-Ok, Serena. Vejo que está tudo bem até aqui. Agora, quando a onda vier, quero que fique sentada, perto da minha perna frontal, para manter o equilíbrio. –disse Ethan, finalmente subindo na prancha, depois de nadar muito para levar a prancha até o fundo, para que pudéssemos pegar uma boa onda.

Assenti, mesmo estando decepcionada por essa primeira onda que pegaríamos ter que ser sentada. Eu estava em perfeitas condições para ficar em pé de primeira. Podia não ser a melhor surfista, mas eu sabia muito bem me virar em cima de uma prancha.

-Mas por que sentada?

Ethan olhos verdes, puxou de leve meu rabo de cavalo e eu fiz minha melhor cara questionadora para ele, que caiu na gargalhada assim que viu minha face confusa.

-Para encontrar o equilíbrio. Precisamos fazer isso duas ou três vezes para encontrar o balanço ideal entre nossos pesos, para que você possa ficar em pé e desfrutar da sensação de deslizar em cima da crista da onda, sem cair.

E desta vez fui eu quem riu ao imaginar o suave deslizar sobre a onda, nesta maravilhosa água. Em minha mente, não havia melhor sensação.

Muitos diriam que é simples e pura bobagem, mas sempre que eu surfava, sentia que meus pecados, traumas e medos eram levados comigo durante o trajeto do fundo do mar até quase a areia e se desfazia junto com a onda e tudo o que sobrava era um receptáculo vazio (conta-se corpo e mente), pronto para novas experiências.

Fechei os olhos, para sentir a brisa marítima, assim como o som sorrateiro do mar. Fechar os olhos sempre me fazia mais próxima do mar, senti-lo em meu coração e por um momento, fazer parte dele. Assim eu nunca precisava olhar para saber quando uma onda estava chegando, bastava ouvir atentamente, que eu a sentia chegar a mim.

Senti um leve borbulho nas profundezas do oceano, um movimento a principio tímido, mas que depois foi ganhando força e velocidade. Era a onda perfeita.

-Está vindo! –olhos verdes gritou, animado. –E é das boas, você deu sorte! Quando a onda se aproximar, fique de joelhos e rapidamente sente em cima das panturrilhas e procure ficar num lugar da prancha em que se sinta segura o suficiente, é o melhor jeito de encontrar o equilíbrio.

Não precisei abrir os olhos para ver a onda chegando, pois todos os nervos do meu corpo sentiam e me alertavam disso. Eu apenas fiz o que Ethan mandou e me movi levemente para a ponta da prancha, para que ele também pudesse ficar confortável em cima dela. Suas pernas eram grandes e ele precisaria de um grande espaço para ficar em pé.

A onda bateu com toda força em nossa grande prancha e assim deslizamos meio metro, até que a meu acompanhante ficou de pé e nós caímos no mar gelado. Talvez tenhamos caído por estarmos perto demais, digo, eu havia me mexido mais para a ponta, mas talvez não foi o suficiente, assim como não foi suficiente o tanto que ele se moveu para a parte de trás da prancha e, como estávamos fazendo peso demais em um só local, tombamos.

Se eu dissesse que foi ruim tombar, estaria mentindo, pois adorei a sensação do mar refrescando minha pele. O único porém, era aquela roupa de borracha que éramos obrigados a usar para manter a temperatura corporal, pelo mar dali ser gelado demais. Essa roupa esquentava e não deixava eu me refrescar direito. Se eu contasse isso para uma pessoa sensata, ela diria que era bom, pois me impedia de ter um choque térmico por estar com corpo quente em água gelada, mas eu estava com calor demais para considerar a possibilidade de choque térmico.

Emergi, cortando a calmaria das águas após a incrível onda. Nadei até a prancha, apenas esperando Ethan voltar à superfície. Talvez ele quisesse me pregar um susto, mas não conseguiu nada devido a clareza das águas, pois pude vê-lo nadar na direção de minhas pernas e surgir do meio da água, a meros centímetros de mim.

Arqueei uma sobrancelha, enquanto ele perdia o fôlego de tanto rir, e ria sem motivos aparentes. Era um riso gostoso e contagiante, tanto que não pude conter o meu por muito tempo e o acompanhei em sua alegria sem motivo.

-Adoro levar vacas! –declarou, rindo mais ainda. –É cada uma mais engraçada que a outra!

Continuamos rindo muito, enquanto passava em minha mente um filme com todas minhas vacas, pequenas ou grandes quedas da prancha, que eu já levara. Concordei com ele, no quesito de todas serem engraçadas, pois era uma trapalhada só de prancha, pés batendo loucamente, assim como os braços, todos tentando encontrar a superfície, apenas para ver a prancha virada para baixo na água, antes de tentar mais uma vez.

Olhos verdes colocou as mãos em minha cintura e me ergueu na prancha. Ficamos nariz com nariz, sentindo a respiração um do outro, encarando intensamente os olhos do outro. E aqueles olhos verdes brilhavam tanto... Ele desviou os olhos para meus lábios com desejo e me senti tentada a fazer o que qualquer mulher sensata faria, beija-lo intensamente, mas por mais que eu quisesse, eu não consegui. Infelizmente, meu doce e traidor coração batia por outro, e era esse outro que eu ansiava beijar.

Virei o rosto para o lado, quebrando aquele olhar e voltando bruscamente a realidade. Ethan era uma pessoa incrível, quando não estava dando ataques por ser extremamente protetor. Eu poderia facilmente me apaixonar por ele, mas eu já estava apaixonada pelo canalha do Lautner e por enquanto, nada mudaria isso.

-Vamos tentar novamente. –disse ele, voltando a se concentrar na nossa meta, que era surfar. –Desta vez tente ir mais para frente, assim distribuiremos melhor nosso peso, ok?

Assenti brevemente, ainda sem jeito pelo quase acontecido. Estava de frente para a areia, onde poucas crianças brincavam, quando senti a prancha se deslocar pelas águas. Olhei para o lado e vi Ethan andando no mar e empurrando a prancha. Ele era alto o suficiente para que a água batesse apenas na altura do peito dele na profundidade em que estávamos, mas para mim, ali já não dava pé e se eu caísse novamente, eu dependeria apenas de meu nado.

Quando chegamos à altura que estávamos antes de nossa desastrosa vaca, Ethan subiu na prancha e ficou observando o mar. Eu me ajeitei e fiquei pronta para a próxima onda, que demorou a vir. Na verdade, fiquei vários minutos de olhos fechados, sentindo a calmaria do mar, antes que sentisse o borbulhar de uma onda em meu âmago.

-Na próxima onda. –meu acompanhante sussurrou em meu ouvido.

E eu me preparei mais do que nunca, indo para frente o máximo possível. O impacto da onda na prancha foi suave e logo estávamos deslizando pelo mar em um ritmo tão gostoso, que me permiti abrir os braços para aproveitar melhor a suave brisa causada por nossa velocidade.

Chegamos ao local onde poucas pessoas se banhavam, com leve risos de felicidade. Aquele simples deslizar pelas ondas fora tão libertador, que até me esqueci dos recentes acontecimentos ruins desta manhã, desde o surto de proteção, até o quase beijo.

Sem uma palavra, voltamos ao local onde pegávamos onda e esperamos muito pouco até que a próxima onda viesse, mas desta vez fomos somente até meio caminho, pois eu tentei me levantar e desajeitada, acabei caindo e afundando com força.

Retornamos ao inicio, comigo levando bronca de olhos verdes, devido a minha “imprudência” de tentar levantar sem que ele tivesse me dito o melhor jeito de fazer isso.

-Agora me escute, Serena. –ele disse segurando meus braços, após ter me colocado sentada na prancha. –O melhor jeito de levantar, estando você de joelhos, é apoiar primeiro o pé esquerdo atrás, apoiar as mãos perto do joelho da frente e daí levantar. Minha perna da frente e sua perna de trás dividirão o meio, enquanto minha perna de trás fica com a parte traseira e a sua da frente com a frontal, está entendendo?

-Sim capitão! –tentei bater continência, mas não consegui, por meus braços estarem sendo segurados por Ethan, que riu assim que pronunciei aquelas palavras.

-Vou tentar te segurar da melhor maneira possível, mas tente se equilibrar sozinha, pois não posso garantir nada. –completou.

Assenti para o que ele disse, antes que a prancha começasse a se deslocar para o fundo. Não precisei olhar para saber que ele andava ao invés de nadar, já havia entendido que assim ficava mais fácil para ele empurrar a prancha do que nadando.

Eu insisti dizendo que podia nadar até o local, mas ele negou veementemente, dizendo que era melhor assim e, sendo folgada como sou, simplesmente concordei.

Fiquei sentada na prancha, enquanto olhos verdes nadava a minha volta, apenas esperando uma onda boa para irmos. Olhei para o horizonte, observando o sol subir lentamente no limpo céu azul, ao longe também vi Anthony pegar suas ondas, fazer suas manobras e levar seus tombos. Fiquei feliz por ele estar se divertindo, mesmo não sendo aquele um dia com ondas tubo, como as que ele gostava de pegar.

Deitei na prancha, apenas esperando que algo de bom ou diferente acontecesse e aconteceu, mas pela força com que joguei minhas costas na extensão da prancha, ela virou com tudo e caí de cabeça no mar. Sim, de cabeça, a parte que afundou primeiro foi minha cabeça, deixando apenas minhas pernas de fora, enquanto eu afundava.

Minha garganta ardeu com o tanto de água de engoli, mas eu logo tratei de mexer meus braços e pernas, já afundadas, para subir a superfície em busca de ar. Quando minha cabeça cortou a água, inspirei profundamente, antes de tossir um tanto de água que entrou em minhas vias respiratórias.

-Está tudo bem? –disse Ethan aparecendo em meu socorro.

-Tudo certo. –disse eu, com a voz áspera como lixa.

Ele se aproximou de mim, apoiou um braço na prancha, que apenas virara de cabeça para baixo com a minha queda e tirou alguns fios de cabelo da minha testa.

-Vamos para a areia, você precisa de um pouco de água para melhorar essa garganta. –disse ele, já tentando me arrastar pelo braço.

-Se você quiser ir, fique a vontade, mas eu vou pegar aquela onda ali. –apontei para trás, para uma grande onda que se formava. Minha voz ainda estava rouca, mas pouco me importei.

Virei a prancha e subi nela, prontíssima para pegar a onda. Ela estava quase chegando quando Ethan se deu conta de que eu estava falando sério e também subiu na prancha, para me acompanhar.

Esperamos pacientemente até que a onda chegasse a nós, para começar nossa grande preparação. Primeiro, olhos verdes se ergueu lentamente na prancha, como fez da outras vezes e foi aí que tudo começou. Apoiei a ponta do pé esquerdo na prancha, o mais perto possível da perna direita dele, apoiei levemente os braços ao lado do joelho direito, já me sentindo confiante para colocar o pé esquerdo inteiro na prancha, empurrei meu tronco para cima, com a maior delicadeza possível e em pouco tempo eu estava com os joelhos flexionados, costas apoiadas no peito de meu acompanhante, enquanto seu braço direito se apoiava em minha cintura e braços abertos, como se para dar um abraço no extenso oceano.

O vento em meu rosto, o peso leve sobre um material pretenso a afundar, mas que em verdade, deslizava na água e não exatamente me transportava para um lugar, mas que me movia pela água, impulsionando somente para frente, para a areia, que era o fim de seu curso.

Aquilo aparentemente não tinha finalidade alguma, mas me fazia viajar e esquecer de tudo de ruim que me acontecera nos últimos meses. Eu estava finalmente livre.

-De novo! –exclamei como uma criança, quando chegamos ao local dos banhistas. E repetimos o processo, de novo, de novo e de novo. Inúmeras vezes, incansáveis vezes, pois cada vez era uma emoção diferente, uma renovação diferente e eu queria aquilo mais que tudo.

Pegaríamos uma última onda, já era quase meio dia e o sol estava a pino, eu estava morrendo de fome e a maioria das pessoas já haviam saído da praia, tanto para almoçar, quanto para fugir do sol nocivo.

Mas havia algo de errado com o mar. Apesar do sol estar forte e brilhante, as ondas estavam fortes demais e instáveis, talvez até um pouco perigosas. Eu estava com um pouco de medo e totalmente receosa em pegar mais uma onda, mas com as ondas fortes como estavam, eu não conseguiria vencer a distancia até areia a nado e ficaria muito difícil para Ethan me carregar e tentar não se afogar, por isso insisti tanto nessa última onda, porque seria mais fácil de chegar a areia.

-Tem certeza? –meu acompanhante perguntou, pronto para entrar na próxima onda. Ele também estava receoso, mas havia concordado com meu raciocínio.

-Não, mas vamos lá. –disse eu, já me preparando em cima da prancha. Concordamos que desta vez, ambos ficaríamos sentados nela, não por ser mais seguro, mas por ser menos perigoso que ficar em pé.

Entramos na forte onda, clamando para que chegássemos seguros a areia, porém o destino preparou algo diferente para nós. A onda era forte demais e em contrapeso, éramos leves demais. Não fomos engolidos pelo mar nem nada do tipo, mas fomos arremessados para uma pedra, que por sinal era perto da areia, só que isso não foi boa coisa.

Além da dor nas costelas por te batido na pedra, Ethan foi empurrado para cima de mim, o que me tirou totalmente o ar. Eu tentei empurra-lo, mas meus braços não foram tão fortes como a onda que veio a seguir, que graças a Deus, nos empurrou para longe da pedra, mas o pesadelo estava longe de acabar. Foi um estranho e certeiro pressentimento, porque olhei para trás bem a tempo de ver um rastro vermelho que me seguia na água e uma barbatana ao longe, que logo foi encoberta pelas ondas. A julgar pelo tamanho, eu tinha certeza que era um tubarão.

A adrenalina tomou conta de meu corpo, tomei o impulso necessário e comecei a nadar desesperadamente em busca da areia, tão próxima e tão distante naquele momento. Felizmente, Ethan seguiu meu exemplo desesperado e começou a nadar tão rápido quanto eu, em busca do destino final. Não soube se ele também havia visto o tubarão, mas ele nadava mais rápido do que eu e, quando passou por mim, tomou um de meus braços e começou a me arrastar com ele. Eu batia o braço livre e pernas, visando chegar mais rápido, mas o que realmente me preocupava não era a velocidade com que fugíamos do tubarão, mas sim o rastro de sangue que me seguia. Tubarões são criaturas totalmente olfativas e o que os atiça é o sangue, por isso quando sentem seu cheiro, ficam mais agressivos.

Eu temia que aquela perigosa criatura nos alcançasse, porém isso não era mais possível, pois depois do que me pareceu séculos, finalmente chegamos à parte rasa. Levantamos e começamos a correr para a areia, mas para meu desespero eu não consegui ir muito longe, caí de cara na água e não consegui levantar.

-Ethan! –gritei para a figura que já estava há muitos passos de mim.

Ele virou para trás, arregalou os olhos, correu novamente até mim, me tomou em seus braços e correu para areia mais rápido do que estava correndo anteriormente e não era para menos, porque de algum modo, o turbarão chegava cada vez mais perto da areia.

Uma dor excruciante tomou conta de minha esquerda e eu a olhei, finalmente descobrindo o motivo do rastro de sangue que me seguia: meu tornozelo estava em um ângulo totalmente estranho, o osso havia perfurado muito minha pele e eu perdia muito sangue. Não entendi como consegui nadar e correr um pouco antes de cair.

O mundo começou a girar, nada estava em seu devido lugar e isso fez com que minhas energias fossem lentamente sugadas.

-Tubarão, tubarão! –foi a última coisa que ouvi, antes que a escuridão recaísse sobre mim.

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Hospital... E no final de tudo acabamos no mesmo lugar onde deveríamos ter ido desde o começo.

Meu pé já estava imobilizado, o tornozelo exatamente no lugar onde deveria estar. Eu havia passado por uma pequena cirurgia, tive de colocar pino para que meu tornozelo pudesse parar no lugar certo, mas por mim estava tudo bem, pois o mais importante era que eu havia sobrevivido ao susto de quase ser atacada por um tubarão.

A única coisa realmente ruim daquilo tudo, era que eu tinha que aguentar o cheiro de éter do hospital e o sangue da grande bolsa conectada ao meu braço, que eu era obrigada a ver. Eu havia perdido muito sangue por conta do ferimento exposto, por isso a bolsa de sangue, mas esse fato não melhorava o amargor infiltrado em baixo da minha língua, que eu sentia por olhar aquilo que entrava em minha veia.

Olhei para o lado e dei de cara com Anthony olhando impacientemente no relógio. Já fazia meia hora que eu acordara e esperávamos o médico, mas nada do mesmo chegar.

Eu até entendia que a demora era porque o médico que me atendeu era o único de plantão na área ortopedia naquele fim de tarde, mas vai explicar isso para meu irmão.

Papai e mamãe haviam ligado perguntando se estava tudo bem conosco, dissemos que havíamos tido um pequeno acidente, mas não era nada com que se preocupar. É claro que minha mãe não acreditou e insistiu para que contássemos a verdade, porém, meu irmão foi firme ao dizer que estava tudo sob controle e que ele lhes contaria o ocorrido quando chegassem ao hotel.

-Anthony, por que você ficou tão bravo quando eu te comparei com o Taylor? –perguntei, querendo nos distrair com relação a espera pelo médico e querendo também terminar a conversa iniciada durante a manhã.

Meu irmão olhou para mim, com a face cansada. Ele não havia saído do hospital desde que eu saíra da cirurgia e só agora que eu acordei, que as enfermeiras o deixaram me ver. Eu devia manda-lo para o hotel, descansar, trocar de roupa, mas temia que ele me deixasse. E de qualquer modo, ele não me obedeceria.

-Isso não é...

-Então não poderemos conversar. –o cortei, já sabendo que ele diria que não era hora, nem lugar para aquele tipo de assunto. –Pense bem: quando mamãe e papai chegarem, eles vão querer pegar o primeiro avião para L.A., mamãe ficará em cima de mim e ainda tem os preparativos finais do meu aniversário de 18 anos, depois disso você volta para Harvard, lá em Cambridge e só nos falaremos por telefone e computador... –iria continuar meu discurso se pudesse, mas fui interrompida por um violento ataque de espirros, causado pelo forte cheiro de éter contido ali. –Ok, apenas essa é a melhor hora para falar. –concluí, quando o ataque passou.

Meu irmão apertou os lábios em uma fina linha, enquanto assentia para si mesmo. Silenciosamente, ele admitia que infelizmente eu estava certa. Eu o fiquei encarando, até que ele encontrasse as palavras certas para proferir seus sentimentos e pensamentos.

-Não é novidade para você meu ódio pelo Lautner, não é? –perguntou retoricamente e suspirou logo em seguida. –O acho arrogante. Ele é exatamente o tipo de cara que não fica satisfeito até conquistar uma garota, apenas para usa-la e joga-la fora, assim que se cansa. O pior de tudo é que ele é ator, portanto, tem a lábia perfeita para fingir o cara apaixonado. Odeio esse tipo de pessoa, odeio esse tipo de pessoa convivendo com quem amo e... –aquela altura eu já mordia o lábio com força. Estaria meu irmão certo? –Sei que pensa que ele é diferente, que ele é atencioso e prestativo, exatamente como ele foi, no dia em que o conheceu naquela sessão de autógrafos, mas aquilo era só interpretação para satisfazer a mídia. Não quero desmerecer o fato dele tê-la salvado, mas me preocupa que ele esteja tão perto de você, penso que ele pode usa-la. –meus olhos arderam em lágrimas, mas não permiti que elas caíssem.

Todos os momentos com Taylor desabaram como uma avalanche em cima de mim. Cada olhar, cada palavra, cada carinho, cada beijo, cada... Eram tantas lembranças boas, tantos momentos maravilhosos, que eu me recusei a acreditar que era pura e simples interpretação da parte dele.

-Não! –gritei em meios as lágrimas, que caíram sem minha permissão. –Você está errado! Não dá para mentir sentimentos, eu estava lá, eu vi tudo, eu senti tudo... ELE NÃO MENTIU SEUS SENTIMENTOS!

O desespero tomou a face de meu irmão. Ele estava desesperado diante de minha exagerada reação e não era para menos, eu estava abalada por tudo o que tinha acontecido hoje. Desde manhã havia sido um dia estranho, um dia que me prendeu a todas as tristezas do passado.

Foi preciso três enfermeiras e um calmante, para que eu sossegasse. A choradeira parou e fui ficando mole, era uma casca vazia e desprovida de sentimentos. O certo era que eu dormisse com aquele calmante, mas não tinha sono, portanto, me obriguei a repetir para Anthony:

-Ele não fingiu seus sentimentos.

Meu irmão tinha o semblante cansado, a testa franzida e olhos opacos de preocupação. Passou uma das mãos em minha testa, afastando uma mecha de cabelo que me caía aos olhos. Depois, ficou vários minutos acariciando meu cabelo antes de prosseguir com nossa conversa.

-Você se envolveu com ele. –não era uma pergunta.

Me limitei a assentir, antes de começar a fitar o nada, na esperança de que algo acontecesse, mas não aconteceu, então fiquei fitando o nada infinitamente.

-Quanto? –a voz de meu irmão era dura e raivosa. Eu queria responde-lo de modo ousado e impertinente, mas a julgar pelo meu recente ataque, não era a melhor hora.

Fechei os olhos, respirei lenta e profundamente, antes de partir para minhas explicações, que eram complicadas demais para ser falada com leviandade.

-Escute. –comecei com a mais tradicional das palavras em uma conversa, onde uma pessoa tenta convencer a outra sobre algo. –Sei que pensa que o Taylor é esse tipo de cara e realmente ele foi, mas... Alguma coisa mudou no dia em que ele me salvou, eu fui a maior testemunha disso. Ele foi meu porto seguro durante muitos dias, me apoiou e me questionou da maneira certa enquanto eu ainda estava confusa com o acontecido, me protegeu, me irritou profundamente e me amou. Os olhos não mentem, Anthony e o que eu vi nos olhos dele foi amor. Sei que nós brigamos e ele fez/faz suas cagadas, mas foi verdadeiro, mesmo que por pouco tempo. Ele ainda me manda mensagens dizendo que sente minha falta, mesmo depois de semanas, até os pais dele disseram que ele estava diferente desde que me salvou. Não pode ter sido mentira.

Meu irmão olhou pensativo para a parede que eu encarava anteriormente. Ficou muito tempo em silencio, assim como eu, cada qual com seus pensamentos.

-E respondendo a sua pergunta, nos envolvemos o mais intensamente possível, diversas vezes.

Ele fechou os olhos e nada disse, o assunto estava encerrado. Não sei quanto tempo se passou, só sei que estava quase dormindo quando o médico finalmente adentrou meu quarto.

-Onde está nossa paciente agitada? –perguntou ele se aproximando de mim com o prontuário em mãos. –Está se sentido bem, querida?

-Forte como um touro. –respondi com voz pesada. –Um touro sonolento e com o pé quebrado.

A risada do médico ecoou pelo quarto, tirando meu irmão de seu profundo devaneio, que virara cochilo. Ele apenas balançou a cabeça, fingindo que não tinha nada de errado. O médico percebeu, mas se conteve, colocando um belo sorriso na face.

-Bom humor faz bem. –disse por fim, antes de começar a ler o prontuário. –Muito bem, senhorita, acho que você tem razão, estará livre amanhã no final da manhã. Está forte como um touro, mas vai sentir dores quando o efeito do analgésico passar. O médico da manhã passará a receita, assim que te liberar. Vejamos... –largou a prancheta em cima de meu gesso e manuseou o estetoscópio.

Fez vários exames básicos, aqueles chatos que eu achava sem sentido, como verificar meus olhos e testar meus reflexos da perna do pé quebrado.

-Está tudo certo, Dr.? Eu verifiquei sua pulsação de trinta em trinta minutos, duas vezes, tentei fazer o tipo de exame manual, mas obtive resultados normais. Isso é bom, não é?

-Irmão. –o Dr. afirmou. –Estudante de medicina? Bem, ela está muito bem, só aguardo o exame de sangue para ver como o corpo dela anda reagindo ao sangue do doador.

Uma leve batida na porta, antes da enfermeira entrar com um papel em mãos. Não conseguia ver o rosto dela de tanto sono que tinha, mas consegui presumir que aquele papel era meu exame de sangue. Ela entregou o papel ao doutor, sussurrou algo em seu ouvido e saiu de fininho, enquanto o “chefe” analisava meu exame.

-E ora, vejam só, forte como um touro. –ele disse, sorrindo para mim. –Seu corpo está aceitando bem o sangue, está tudo bem com o bebê e ele também não rejeita esse sangue, talvez porque o doador tenha sido seu irmão, então voc... –eu estava quase dormindo, mas ainda ouvia as palavras do médico perfeitamente e uma delas me surpreendeu, a ponto de me acordar.

-Bebê? –Anthony e eu indagamos juntos.

O médico nos olhou assombrado, talvez com medo por nossa sincronia, ou pelo fato de ficarmos tão assustados com uma notícia dessas.

-Sim, a senhora não sabia? –perguntou o médico. –Está esperando um bebê, um saudável bebê de 6 semanas.

Olhei para meu irmão e ele olhou para mim ao mesmo tempo, ambos estupefatos com aquilo. Eu estava perdida.

(Continua...)



Um comentário:

  1. OMG. Já desconfiava disso! Fic perfeita! Serena Grávida do Tay! Que perfeitoo! :3

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